O messias já veio ou vira ?

O messias já veio ou vira ?

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O autor: Maxwell Alves Gusmão, estudioso da sociedade e dos comportamentos da fé, dedicou-se à construção de pontes entre o judaísmo e cristianismo, defendendo o diálogo como caminho para a paz.

Em “O Messias já veio ou virá?” Maxwell conduz o leitor a uma conversa franca, respeitosa e profundamente humana sobre esperança, identidade, cultura e convivência. Investiga como a esperança messiânica molda leis, culturas, tradições e a forma como tratamos o próximo.

Este não é um livro para converter, mas para compreender. Não pretende encerrar debates, e sim abrir portas para uma esculta mais sincera e respeitosa.

Se ao final da leitura ainda houver divergências, mas também houver mais respeito entre os diferentes, então o propósito deste livro terá sido alcançado.

Há mais de dois mil anos, a pergunta sobre o Messias acompanha judeus e cristãos – às vezes aproximando, muitas vezes separando.

Mas o autor propõe um olhar diferente: e se o mais importante não estiver apenas na resposta, mas na maneira como caminhamos, afinal, enquanto esperamos?

Antes de tudo, Maxwell é um homem inquieto diante desta pergunta simples e profunda que dá origem ao livro: O Messias já veio ou virá?

Dessa pergunta nasceu esta obra – não para apresentar vereditos, mas para oferecer contexto, diálogo e reflexão.

E, se ao final da leitura ainda houver divergências, mas também houver mais respeito entre os diferentes, então o propósito deste livro terá sido alcançado.

Matsliach (Maxwell)


 

PREFÁCIO

Ao longo dos séculos, uma das perguntas mais debatidas entre estudiosos, religiosos e buscadores da verdade permanece viva: o Messias já veio ou ainda virá?

As Escrituras Sagradas apresentam promessas, sinais e profecias acerca daquele que seria enviado por Deus para redimir, governar e trazer esperança à humanidade. Contudo, diferentes interpretações deram origem a debates que atravessam gerações.

Este livro foi escrito com o propósito de examinar cuidadosamente essas profecias, analisando textos bíblicos, contextos históricos e interpretações que cercam a figura do Messias. Mais do que apresentar argumentos, esta obra convida o leitor a uma jornada de reflexão espiritual e investigação sincera.

Vivemos tempos em que muitas vozes tentam definir a verdade. Por isso, torna-se essencial retornar às Escrituras e permitir que elas falem por si mesmas.

Que esta leitura desperte perguntas, fortaleça a busca pelo conhecimento e conduza cada leitor a uma compreensão mais profunda sobre um dos temas mais importantes da história da fé.

Há uma pergunta que atravessa os séculos como um vento que nunca se cala.
Ela ecoa entre desertos, montanhas, sinagogas, templos e corações aflitos:

As gerações passaram. Reinos se levantaram e caíram. Povos foram espalhados, guerras marcaram a história da humanidade, e ainda assim a promessa permaneceu viva como uma chama acesa diante do Eterno.

Os profetas choraram ao anunciar dias de dor, mas também contemplaram dias de redenção. Isaías viu a esperança nascer em meio às trevas. Jeremias falou sobre restauração. Ezequiel anunciou o despertar de um povo. Daniel contemplou mistérios acerca dos tempos finais.

Mas até hoje, o mundo continua esperando.

Esperando o ungido (messias).

Esperando o rei prometido.

Esperando aquele que trará justiça, paz e verdade.

Este livro não foi escrito apenas para informar.
Foi escrito para despertar.

Despertar aqueles que deixaram as Escrituras fechadas.
Despertar os que aceitaram respostas sem examinar as profecias.
Despertar os que sentem, no íntimo da alma, que ainda existem perguntas não respondidas.

Vivemos dias proféticos. Dias em que a confusão cresce, a verdade é questionada e muitos já não conseguem discernir entre tradição e revelação. Entretanto, as palavras anunciadas pelos antigos profetas continuam vivas, aguardando olhos atentos e corações sinceros.

Cada página desta obra é um convite à reflexão.
Cada capítulo é um chamado para retornar às fontes sagradas e examinar aquilo que o Eterno revelou através da Torah, dos Profetas e dos Escritos.

Talvez algumas respostas desafiem conceitos antigos.
Talvez algumas perguntas provoquem inquietação.
Mas a verdade jamais deve ser temida por aqueles que realmente desejam encontrá-la.

Que o leitor percorra estas páginas com humildade, discernimento e sede espiritual.

E se, durante esta jornada, o coração arder diante das palavras aqui apresentadas, talvez não seja apenas curiosidade…

Talvez seja o eco da própria promessa do Eterno chamando aqueles que ainda aguardam a revelação completa do Messias.

“Preparai o caminho do Senhor; endireitai no deserto vereda para o nosso Deus.”
— Tanakh, Isaías 40:3

 

Shalom.

 

 

Epígrafe

 

Quando a esperança no "futuro" vira um lugar tão distante que não conseguimos olhar para o hoje ela deixa de ser busca e vira fuga da realidade. A materialidade de nossa busca está em encarar com perspicácia a busca do conhecimento e a tolerância ao diferente.

Matsliach bem Avraham

 

Sumário

Epígrafe 4

PREFÁCIO... 7

Introdução. 12

O MESSIAS JÁ VEIO OU VIRÁ?. 15

Os Muitos Messias 15

Os diversos pretendentes messiânicos que surgiram ao longo da história judaica  17

Um pouco da história de João Batista. 23

Milagres efetuado na Bíblia hebraica - (Deuteronômio 13:1-6) 27

A origem do nascimento de Jesus 34

Paralelos Mitológicos e o Conceito de Avatares 34

Nascimentos Virginais nas Tradições Mitológicas 35

O Surgimento da Doutrina da Concepção Virginal e a Trindade 39

Evangelho de Mateus do segundo século 40

A Influência da Septuaginta e a Doutrina do Nascimento Virginal 43

Releitura de Isaías 7:14. 47

A Genealogia: Reflexão Crítica. 48

A Genealogia e o Paradoxo Cristológico 49

O Novo Testamento ou Nova Aliança. 62

Uma Análise à Luz da Escritura Hebraica. 62

O Mashiach Segundo as Profecias 69

A Questão da Dupla Vinda do Messias 73

Paralelo - Moisés o Libertador 75

A Persistente Esperança Judaica no Mashiach. 78

A Base da Esperança Messiânica. 84

Descendente da Mulher e Abrão 86

Aliança com Israel 88

O Arrependimento e o Deus que salva. 90

A Inexistência de Imagem Divina e a Proibição 93

O Nome para a Salvação 94

Qual Aliança com Israel (Pacto)?. 97

Isaías 53: Uma Interpretação Judaica. 98

Israel: O Servo Desprezado e a Unidade do Povo 101

A Interpretação de Isaías 53 e a Não Conformidade com Jesus 103

Sacrifício Humano: Uma Proibição Divina. 103

O Mashiach: Zacarias 9:9-10. 105

 

 

 

Introdução

 

Antes de iniciar esta leitura, é importante compreender que este livro não foi escrito para atacar crenças, provocar divisões ou desrespeitar tradições religiosas. Seu propósito é conduzir o leitor a uma reflexão profunda acerca das promessas messiânicas registradas nas Escrituras Sagradas.

A pergunta que dá nome a esta obra — “O Messias Já Veio ou Virá?” — atravessa séculos de debates, interpretações e expectativas espirituais. Muitos afirmam possuir respostas definitivas; outros continuam aguardando o cumprimento das profecias anunciadas pelos antigos profetas de Israel.

Este livro convida o leitor a caminhar por uma jornada de investigação, análise e discernimento.

Ao longo dos capítulos, serão examinadas profecias, símbolos, acontecimentos históricos e interpretações relacionadas à figura do Messias. Algumas conclusões poderão confirmar ideias já estabelecidas; outras talvez desafiem conceitos transmitidos por gerações.

Por isso, algumas diretrizes são importantes para esta caminhada:

  1. Leia com mente aberta

A busca pela verdade exige humildade. Nenhum conhecimento deve ser aceito apenas pela tradição, nem rejeitado apenas por parecer diferente daquilo que sempre ouvimos.

  1. Permita que as Escrituras falem

Mais importante do que opiniões humanas são as palavras registradas na Torah, nos Profetas e nos Escritos. Este livro incentiva o leitor a examinar cada passagem com atenção e sinceridade.

“Quem não aumenta os seus conhecimentos, diminui-os”. Pirkei Avot (Ética dos pais)

 Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso. Provérbios 30:6

  1. Nem toda profecia possui interpretação simples

As profecias messiânicas frequentemente carregam linguagem simbólica, múltiplos significados e revelações progressivas ao longo da história. Por isso, discernimento e paciência são necessários.

  1. O objetivo não é impor, mas despertar

Esta obra não pretende obrigar o leitor a aceitar conclusões prontas. Seu propósito é despertar perguntas, incentivar pesquisas e estimular uma aproximação mais profunda com a Palavra do Eterno.

  1. Quem busca a Deus de coração sincero não precisa temer a verdade; ela ilumina o caminho e fortalece a fé.

Buscar respostas sobre o Messias pode levar o leitor a confrontar tradições, interpretações e até convicções pessoais. Entretanto, toda busca sincera pela verdade exige coragem para examinar aquilo que muitas vezes foi aceito sem questionamento, por se tratar de tradição de família.

Ao iniciar esta jornada, deixe de lado preconceitos, medos e certezas absolutas. Caminhe pelas páginas seguintes como alguém disposto a ouvir, refletir e discernir.

Talvez, ao final desta leitura, a maior descoberta não seja apenas responder se o Messias já veio ou ainda virá…

Mas compreender o que o Eterno deseja revelar àqueles que verdadeiramente O buscam de coração.

 

Shalom.

Embaixador: Shimon Eliachuh Menachem ben Avraham (Osni Gonzaga da SilvaAvraham)

 

 

 

O MESSIAS JÁ VEIO OU VIRÁ?

 

Os Muitos Messias

 

Desde a destruição do Primeiro Templo, passando pelo exílio babilônico, a dominação grega, o jugo romano e as inúmeras dispersões do povo judeu entre as nações, a esperança pela vinda do Messias permaneceu viva no coração de Israel. Alimentada pelas promessas dos profetas, essa expectativa tornou-se uma das mais profundas expressões da fé judaica.

Em períodos de crise, perseguição e sofrimento, surgiram homens que afirmaram ser o Messias prometido ou que foram reconhecidos como tal por seus seguidores. Alguns apresentavam-se como libertadores políticos; outros, como líderes espirituais ou realizadores de sinais extraordinários. Em comum, todos despertaram a esperança de que havia chegado o tempo da redenção de Israel e da restauração do Reino de Deus.

A história registra que esses movimentos messiânicos floresceram especialmente em épocas de grande instabilidade social e religiosa. Cada um deles reuniu discípulos, inspirou expectativas e, por um período, convenceu multidões de que as antigas profecias estavam prestes a se cumprir. Contudo, nenhum conseguiu realizar plenamente as promessas associadas ao Messias descritas pelos profetas bíblicos: a reunião dos exilados, a paz universal, a reconstrução do Templo e o estabelecimento definitivo da justiça entre as nações.

O estudo desses personagens não apenas ilumina momentos importantes da história judaica, mas também revela a intensidade da esperança messiânica que atravessou os séculos. Conhecer quem foram esses homens, as circunstâncias em que surgiram e as razões pelas quais foram aceitos ou rejeitados permite compreender melhor o grande debate que permanece vivo até hoje: o Messias já veio ou ainda virá?

Nas páginas seguintes, examinaremos os principais movimentos messiânicos da história de Israel, desde o período romano até a era moderna, analisando seus contextos históricos, suas reivindicações e o impacto que exerceram sobre o povo judeu e sobre a compreensão da expectativa messiânica.

 

Os diversos pretendentes messiânicos que surgiram ao longo da história judaica

 

  Ao longo da história de Israel, diversos indivíduos foram identificados por seguidores como possíveis messias (mashiach, "ungido"). Alguns surgiram em contextos de dominação estrangeira, crises políticas ou expectativas apocalípticas. Abaixo estão alguns dos mais conhecidos, com datas aproximadas e referências históricas.

  1. Judas, o Galileu (c. 6 d.C.)

Judas, o Galileu

Liderou uma revolta contra o censo imposto por Roma na Judeia. Embora não tenha declarado explicitamente ser o Messias, foi visto por alguns seguidores como libertador de Israel.

Referências históricas:

Antiguidades Judaicas XVIII.1

Guerras dos Judeus II.8

  1. Teudas (c. 44–46 d.C.)

Teudas

Prometeu dividir as águas do rio Jordão, imitando milagres bíblicos. Reuniu muitos seguidores, mas foi morto pelas autoridades romanas.

Referências históricas:

Antiguidades Judaicas XX.97–99

Atos dos Apóstolos 5:36

  1. O Egípcio (c. 55–58 d.C.)

O Egípcio

Profeta que reuniu milhares de seguidores no Monte das Oliveiras, prometendo a queda milagrosa dos muros de Jerusalém.

Referências históricas:

Antiguidades Judaicas XX.169–172

Atos dos Apóstolos 21:38

  1. Simão Bar Kochba (132–135 d.C.)

Simão Bar Kochba

Foi o mais importante pretendente messiânico da antiguidade judaica. Recebeu apoio do famoso rabino Rabbi Akiva, que o chamou de "Rei Messias".

Liderou a última grande revolta judaica contra Roma.

Referências históricas:

Revolta de Bar Kochba

Talmude Babilônico, Sanhedrin 93b

Cartas de Bar Kochba encontradas no Deserto da Judeia

  1. Moisés de Creta (c. 440 d.C.)

Moisés de Creta

Prometeu conduzir os judeus através do mar, repetindo o êxodo bíblico. Muitos seguidores se lançaram ao mar acreditando no milagre.

Referências históricas:

Relato de Sócrates Escolástico em sua História Eclesiástica.

  1. Abu Isa al-Isfahani (século VIII)

Abu Isa al-Isfahani

Liderou um movimento judaico na Pérsia e foi considerado messias por seus seguidores.

Referências históricas:

Sefer HaKabbalah

  1. David Alroy (c. 1160)

David Alroy

Proclamou-se Messias e tentou organizar uma libertação militar de Jerusalém.

Referências históricas:

Relatos de Benjamin de Tudela

  1. Shabbetai Tzvi (1626–1676)

Shabbetai Tzvi

Considerado o maior movimento messiânico judaico depois de Bar Kochba. Milhares de judeus na Europa, Oriente Médio e Norte da África acreditaram que ele era o Messias.

Em 1666, foi preso pelo Império Otomano e converteu-se ao islamismo, causando enorme crise no judaísmo.

Referências históricas:

Sabbatai Sevi: The Mystical Messiah

  1. Jacob Frank (1726–1791)

Jacob Frank

Apresentou-se como sucessor espiritual de Shabbetai Tzvi e foi considerado uma figura messiânica por seus seguidores.

Referências históricas:

The Frankist Movement

Observação Histórica

Do ponto de vista do judaísmo rabínico tradicional, nenhum desses personagens cumpriu os requisitos messiânicos descritos pelos profetas bíblicos, como a restauração completa de Israel, a paz universal, a reconstrução do Templo e o conhecimento universal de Deus (cf. Isaías 2:1–4; Ezequiel 37; Zacarias 14). Por isso, todos foram posteriormente rejeitados pela corrente principal do judaísmo.

 

Os Muitos Messias da História Judaica: Expectativa, Esperança e Desilusão

Do ponto de vista do judaísmo rabínico, nenhum desses personagens cumpriu os requisitos messiânicos descritos pelos profetas bíblicos, como a restauração completa de Israel, a paz universal, a reconstrução do Templo e o conhecimento universal de Deus (cf. Isaías 2:1–4; Ezequiel 37; Zacarias 14). Por isso, todos foram posteriormente rejeitados pela corrente principal do judaísmo.

 

Referências históricas:

  • The Frankist Movement

Resumo Cronológico

Data

Nome

Local

6 d.C.

Judas, o Galileu

Judeia

44–46 d.C.

Teudas

Judeia

55–58 d.C.

O Egípcio

Jerusalém

132–135 d.C.

Simão Bar Kochba

Israel

c. 440

Moisés de Creta

Creta

Século VIII

Abu Isa al-Isfahani

Pérsia

c. 1160

David Alroy

Mesopotâmia

1665–1666

Shabbetai Tzvi

Império Otomano

Século XVIII

Jacob Frank

Europa Oriental

 

Um pouco da história de João Batista

Historicamente, João Batista não se apresentou como Messias, nem foi reconhecido oficialmente como tal por seus próprios ensinamentos. Contudo, algumas pessoas de sua época chegaram a se perguntar se ele poderia ser o Messias esperado.

O contexto do século I era marcado por intensa expectativa messiânica entre os judeus. A pregação de João no deserto da Judeia, seu chamado ao arrependimento e o grande número de seguidores que atraía fizeram surgir especulações sobre sua identidade.

O Evangelho de Lucas registra:

"Estando o povo na expectativa, e pensando todos em seus corações se João não seria o Cristo..." (Lucas 3:15).

Segundo o relato, João respondeu negando explicitamente essa possibilidade:

"Eu, na verdade, vos batizo com água; mas vem aquele que é mais poderoso do que eu..." (Lucas 3:16).

Da mesma forma, o Evangelho de João afirma que sacerdotes e levitas enviados de Jerusalém perguntaram diretamente a João quem ele era. Quando questionado se era o Messias, respondeu:

"Eu não sou o Cristo" (João 1:20).

A visão histórica

Alguns estudiosos observam que João Batista liderou um movimento religioso independente e muito influente. Após sua morte, continuaram existindo grupos de discípulos de João, alguns dos quais parecem não ter aceitado Jesus como Messias. Isso sugere que certos seguidores poderiam ter atribuído a João um papel maior do que ele próprio reivindicava.

Fontes antigas, como os escritos de Flávio Josefo, descrevem João como um pregador respeitado e influente, mas não o apresentam como pretendente messiânico.

 

"João Batista: Profeta Messiânico?"

Embora o movimento original de João Batista tenha praticamente desaparecido, ainda existem grupos religiosos que o veneram como sua principal figura espiritual.

O exemplo mais conhecido são os Mandeus (ou mandeanos), uma antiga comunidade religiosa que vive principalmente no Iraque, no Irã e em comunidades da diáspora.

Quem são os mandeus?

Os mandeus são uma religião monoteísta com elementos gnósticos, cuja origem remonta aos primeiros séculos da era cristã. Eles consideram João Batista o maior dos profetas e realizam frequentes rituais de batismo em água corrente.

Curiosamente, eles não aceitam Jesus como Messias ou Filho de Deus da forma como o cristianismo ensina. Em suas tradições, João Batista ocupa uma posição muito superior.

Os discípulos de João no século I

O Novo Testamento menciona que, décadas após a morte de João Batista, ainda existiam discípulos que conheciam apenas o batismo de João.

Isso demonstra que o movimento de João continuou existindo por algum tempo de forma independente.

 

Quantos seguidores existem hoje?

Os mandeus são uma minoria muito pequena, estimada em dezenas de milhares de pessoas no mundo. Guerras e perseguições no Oriente Médio reduziram significativamente sua população nas últimas décadas.

"Embora João Batista não tenha reivindicado para si o título de Messias, sua influência foi tão grande que seu movimento sobreviveu à sua morte. Ainda hoje existem comunidades religiosas que o consideram seu principal profeta, demonstrando o impacto duradouro de sua mensagem na história das religiões."

 

Milagres efetuados na Bíblia hebraica - (Deuteronômio 13:1-6)

Deuteronômio 13:6 diz: "Quando te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo-te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais;"

Um dos versículos mais claros sobre a tentação de adorar outros deuses é Êxodo 20:3: “Não terás outros deuses além de mim”. Ele enfatiza a exclusividade da fé em Deus e alerta contra qualquer forma de idolatria.

Versículos que advertem contra outros deuses

Êxodo 20:3 – “Não terás outros deuses além de mim.”

Deuteronômio 13:2-4 – Adverte contra falsos profetas que incentivam seguir outros deuses, dizendo que isso é uma prova de fidelidade ao Senhor.

1 Reis 11:10 – Deus advertiu Salomão a não adorar outros deuses, mas ele desobedeceu, trazendo consequências para seu reino.

Jeremias 16:20 – “Pode o homem mortal fazer os seus próprios deuses? Sim, mas estes não seriam deuses!”

Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos do homem. Salmo 115:4-8

Contexto e Significado

Exclusividade da fé: A Bíblia reforça que só há um Deus verdadeiro, e qualquer outro “deus” é falso. Isaías 43:10 é um versículo central que fala sobre o testemunho do povo de Deus e a exclusividade do Eterno como único Deus verdadeiro. Ele diz:

“Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e o meu servo, a quem escolhi; para que saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá.” (Isaías 43:10)

Isaías 44:6 – “Eu sou o primeiro e eu sou o último, e fora de mim não há Deus.”

Isaías 43:10 é um marco do monoteísmo bíblico, reafirmando que só o Senhor é Deus e que Israel tem a missão de testemunhar essa verdade. Ele conecta diretamente com o Shemá judaico e com a fé cristã na exclusividade divina. Deuteronômio 6:4 Shemá: “O Eterno é único” |

Prova de fidelidade: Em Deuteronômio, seguir outros deuses é visto como um teste para verificar se o povo ama a Deus de todo coração.

Consequências práticas: O exemplo de Salomão mostra que a idolatria pode levar à perda de bênçãos e até de poder.

Tabela Comparativa de Versículos

Versículo

Mensagem central

Consequência

Êxodo 20:3

Exclusividade de Deus

Idolatria proibida

Deuteronômio 13

Teste de fidelidade

Profetas falsos punidos

1 Reis 11:10

Salomão desobedece

Reino dividido

Jeremias 16:20

Deuses feitos por homens

Não são verdadeiros

 

 

 

Reflexão

Esses versículos mostram que a tentação de adorar outros deuses é recorrente na história bíblica, mas sempre traz consequências negativas. A mensagem central é clara: permanecer fiel ao Senhor é essencial para manter a aliança e a bênção.

Milagres não são sinais para justificar uma pessoa como messias, ou se tornar um deus.

São inúmeros os casos de milagres dentro do TANACH.

Maravilhas Operadas por Intermédio de Moisés

As Pragas Desencadeadas sobre o Egito

1.Das águas convertidas em sangue – Êxodo 7:14-24

2.Da praga das rãs – Êxodo 8:1-15

3.Da praga dos piolhos – Êxodo 8:16-19

4.Da praga das moscas – Êxodo 8:20-32

5.Da peste que assolou os animais – Êxodo 9:1-7

6.Das úlceras que cobriram a pele – Êxodo 9:8-12

7.Da saraiva que desabou dos céus – Êxodo 9:13-35

8.Dos gafanhotos que devoraram a terra – Êxodo 10:1-20

9.Das trevas que cobriram a terra – Êxodo 10:21-29

10.Da morte dos primogênitos – Êxodo 11:1-10; 12:29-30

Prodígios no Deserto e na Travessia

1.Da abertura do Mar Vermelho – Êxodo 14:21-31

2.Das águas amargas de Mara tornadas dulcíssimas – Êxodo 15:23-25

3.Do maná que desceu como orvalho dos céus – Êxodo 16:14-36

4.Das codornizes que cobriram o acampamento – Êxodo 16:13

5.Da água que jorrou da rocha em Horebe – Êxodo 17:5-7

6.Da vitória sobre Amaleque enquanto Moisés erguia as mãos – Êxodo 17:8-13

7.Do fogo que desceu sobre o Sinai – Êxodo 19:16-19

8.Da serpente de bronze levantada no deserto – Números 21:6-9

9.Da água que brotou da rocha em Meribá – Números 20:7-13

10.Da sarça que ardia sem se consumir – Êxodo 3:1-4

11.Do cajado que se fez serpente – Êxodo 4:2-4

12.Da mão que se cobriu de lepra e foi restaurada – Êxodo 4:6-7

13.Da terra que se abriu e tragou Corá, Datã e Abirão – Números 16:31-35

14.Da vara de Arão que floresceu – Números 17:1-11

II — Maravilhas Operadas por Intermédio de Josué

1.Da travessia do Jordão em terra seca – Josué 3:14-17

2.Da queda dos muros de Jericó ao som das trombetas – Josué 6:6-20

3.Do sol e da lua que se detiveram em Gibeom – Josué 10:12-14

4.Das pedras que caíram do céu em Bete-Horom – Josué 10:11

III — Maravilhas Operadas por Intermédio de Elias

1.Do fechamento dos céus que reteve a chuva por três anos e meio – 1 Reis 17:1

2.Do azeite da viúva de Sarepta que não se esgotou – 1 Reis 17:8-16

3.Da ressurreição do filho da viúva de Sarepta – 1 Reis 17:17-24

4.Do fogo que desceu do céu sobre o Monte Carmelo – 1 Reis 18:20-39

Nenhum desses homens foi reputado como deus por haver realizado tão insignes prodígios. Antes, em todos os sucessos, o Eterno foi glorificado. Caso se pretenda alegar a morte de Jesus como fonte salvadora, difere do argumento que se enquadra na mesma condição do versículo “6” supra mencionado: “tal profeta seja morto”.

  

A origem do nascimento de Jesus

É de conhecimento amplamente difundido que uma das crenças centrais do cristianismo é a de que Jesus teve um nascimento miraculoso, concebido por uma virgem chamada Maria. Só que toda narrativa tem diversas facetas a serem analisadas. Contudo, o maior desafio é ter a decisão de conhecer os dois lados do pensamento. Não tem como um confronte de opinião sem conhecer o outro lado.

A sistemática é muito interessante, ao afirmar a minha verdade, sem conhecer os fundamentos alheios, não serei um bom estudioso nem bom ouvinte.

Paralelos Mitológicos e o Conceito de Avatares

 

A doutrina do nascimento virginal de Yeshua não é um fenômeno isolado no campo religioso. Dentro do contexto da história comparando as religiões antigas é possível identificar diversos relatos mitológicos anteriores ou contemporâneos que descrevem o nascimento sobrenatural ou miraculoso de figuras consideradas divinas ou semidivinas.

Essas figuras, frequentemente denominadas avatares em certas tradições, aparecem em culturas variadas com histórias que envolvem concepções por virgens, manifestações celestiais, ou intervenções de entidades divinas. Esse padrão narrativo comum sugere a existência de motivos religiosos universais que transcendem tradições específicas e influenciam a construção de doutrinas ao longo do tempo.

Nascimento Virginal na Tradição Mitológica

 

A ideia de um nascimento miraculoso ou virginal atribuído a figuras divinas ou semidivinas não é exclusiva do cristianismo. Diversas tradições antigas apresentam narrativas semelhantes, o que sugere a presença de um arquétipo comum na construção religiosa de figuras redentoras ou avatares.

Na Pérsia antiga, por exemplo, Zaratustra (ou Zoroastro) é apontado por algumas tradições como o primeiro de uma linhagem de redentores, alegadamente nascido de uma virgem por intervenção divina.

No Egito, muito antes do surgimento do cristianismo, havia relatos de divindades nascidas de forma sobrenatural. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Hórus, tido como filho da deusa Ísis e do deus Rá, cuja concepção, segundo mitos egípcios, teria ocorrido de maneira não convencional, sendo interpretada por alguns estudiosos como uma forma simbólica de nascimento virginal.

Na Índia, o conceito de avatares — manifestações divinas em forma humana — é central. Entre esses, destaca-se Krishna, considerado um salvador divino, cuja mãe, Devaki, foi retratada em algumas tradições como uma mulher de pureza excepcional, escolhida para dar à luz um ser divino. Em certas versões da narrativa, Krishna aparece com o nome Chrishna, e sua história também carrega elementos de intervenção sobrenatural na concepção.

No caso de Siddhartha Gautama, o Buda histórico, tradições posteriores afirmam que sua mãe, Maia, era uma virgem tocada por um poder celestial. De acordo com esses relatos, uma entidade divina chamada Shing-Shin teria descido sobre Maia, resultando na concepção de Buda, um evento interpretado como de natureza miraculosa.

Entre os siameses (tailandeses), há menções a uma figura redentora chamada Codom, nascida de uma virgem que, segundo a tradição, foi avisada por um mensageiro divino de que daria à luz um grande enviado de Deus. A concepção teria ocorrido por meio de raios solares de origem sagrada.

Na China, registros históricos e relatos de missionários jesuítas relatam sua surpresa ao encontrar, na religião tradicional chinesa, histórias anteriores ao cristianismo que narravam o nascimento de um mestre redentor. Um exemplo frequentemente citado é Lao-Tsé, figura venerada no taoismo, cuja mãe teria sido uma virgem de pele escura, descrita como de grande beleza, e cujo nascimento foi situado por algumas tradições em um período que remonta a mais de três milênios antes de Yeshua.

Considerações

Diante da análise textual, genealógica, histórica e teológica, constata-se que:

A genealogia de Jesus apresenta uma contradição se assumido que foi concebido pelo Espírito Santo;

A profecia de Isaías 7:14 teve cumprimento no contexto histórico de Acaz e Ezequias, e não pode ser lida duplamente sem forçar o texto original;

A concepção virginal não era parte da expectativa messiânica do judaísmo do Segundo

Templo, nem da interpretação judaica de Isaías.

Assim, o nascimento virginal de Yeshua aparece mais como uma construção teológica helenística do que como o cumprimento literal de uma profecia hebraica. A análise crítica da tradição e dos textos aponta para a necessidade de releituras mais próximas do contexto histórico e linguístico original.

 

O Surgimento da Doutrina da Concepção Virginal e a Trindade

 

Relatos históricos apontam que as tradições mais antigas do cristianismo não mencionavam originalmente a concepção de Jesus pelo Espírito Santo. Essa doutrina só veio a se consolidar na Ásia Menor, distante da Galileia, no contexto de debates teológicos ocorridos entre os séculos III e IV. Nesse processo de formulação dogmática, Jesus foi declarado a segunda pessoa da Trindade, e sua mãe, Maria — uma mulher judia da Galileia, esposa de José, o carpinteiro — foi posteriormente elevada ao status de Theotokos, ou seja, “mãe de Deus”.

Essa informação é registrada por Pierre Van Paassen, em sua obra Por que morreu Jesus? nas páginas 17 e 18. A reflexão proposta pelo autor revela que a teologia católica, em sua formação histórica, reconhece aspectos doutrinários que muitos cristãos evangélicos desconhecem ou não questionam, como a deificação de Maria e a natureza divina de Jesus segundo a doutrina trinitária.

Não se trata, portanto, de uma crítica exclusivamente judaica ou uma tentativa de "distorcer" a fé cristã; trata-se de uma análise fundamentada na evolução histórica das crenças dentro do próprio cristianismo institucionalizado, especialmente após os concílios ecumênicos (Niceia, 325; Constantinopla, 381).

Considerações

Diante dessas diversas tradições, é possível observar que o relato do nascimento virginal de Yeshua, embora central no cristianismo, não é inédito no panorama das religiões antigas. Narrativas de concepções divinas e nascimentos extraordinários fazem parte do imaginário espiritual de várias culturas, o que permite interpretações simbólicas, teológicas e comparativas dentro dos estudos das religiões.

Evangelho de Mateus do segundo século

Uma importante descoberta ocorreu no final do século XIX, quando estudiosos identificaram, na biblioteca do Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, um antigo manuscrito conhecido como Evangelho Siríaco Sinaítico. Esse documento contém uma das mais antigas versões dos Evangelhos em língua siríaca e passou a desempenhar papel relevante nos estudos da crítica textual do Novo Testamento.

De acordo com especialistas em arqueologia bíblica e história dos manuscritos cristãos, o Siríaco Sinaítico preserva uma tradição textual muito antiga, constituindo uma fonte valiosa para a comparação entre diferentes versões dos Evangelhos. Comentários acadêmicos, como os apresentados na Bíblia de Jerusalém, frequentemente mencionam sua importância para a compreensão da transmissão dos textos neotestamentários ao longo dos primeiros séculos do cristianismo.

Embora o manuscrito atualmente conhecido seja geralmente datado entre os séculos IV e V, muitos pesquisadores reconhecem que ele pode refletir tradições textuais consideravelmente mais antigas, próximas das primeiras comunidades cristãs de língua siríaca.

Essa versão primitiva do evangelho sugere que José, esposo de Maria, seria o pai biológico de Jesus, o que lança novas luzes sobre a tradicional doutrina do nascimento virginal. Tal descoberta questiona uma das colunas fundamentais da cristandade, indicando que o relato da concepção virginal pode ter sido uma interpretação posterior, e não uma afirmação original do texto.

Adicionalmente, essa leitura corrobora a hipótese de que o versículo de Isaías 7:14 — frequentemente citado como profecia do nascimento virginal — não se referia especificamente a uma "virgem", mas sim a uma jovem mulher, conforme a terminologia original hebraica (almah). De fato, a promessa messiânica, conforme Gênesis 3:15, é centrada na descendência de uma mulher, sem necessariamente excluir a participação de um pai humano.

A versão siríaca do evangelho de Mateus — preservada em manuscritos antigos encontrados no convento de Santa Catarina, no Sinai — oferece uma leitura que difere significativamente da tradição cristã predominante. Este texto, conhecido como Evangelho Siríaco Sinaítico, sugere que o nascimento de Jesus não ocorreu por meio de concepção virginal, mas sim por meio da união entre Maria e seu esposo José, identificando-o explicitamente como o pai biológico da criança, e não o Espírito Santo.

Tal perspectiva representa uma desconstrução crítica de uma das doutrinas centrais do cristianismo — o nascimento virginal — e levanta importantes implicações teológicas e hermenêuticas, sobretudo no que diz respeito à leitura do texto de Isaías 7:14. Este versículo, muitas vezes interpretado no cristianísmo como uma profecia messiânica referente a uma “virgem”, contudo, no hebraico original o termo é almah, que é traduzido de forma mais precisa como "jovem mulher", sem implicações obrigatórias de virgindade.

Manuscritos do Mar Morto

A descoberta arqueológica realizada em 1947 nas grutas de Qumran, situadas nas proximidades do Mar Morto, revelou uma coleção de manuscritos antigos que transformaram os estudos bíblicos e históricos do judaísmo do período do Segundo Templo. Esses manuscritos, conhecidos como os Manuscritos do Mar Morto, foram cuidadosamente preservados em talhas de cerâmica por membros da seita judaica conhecida como os essênios. Entre os diversos textos encontrados, destaca-se uma versão do livro do profeta Isaías, cuja leitura difere significativamente das traduções tradicionais cristãs, especialmente no versículo 7:14.

No manuscrito de Isaías encontrado em Qumran, a passagem é traduzida assim:

“Eis que a jovem grávida dará à luz um filho...”

Essa formulação difere da tradução comum encontrada em muitas versões cristãs da Bíblia, que preferem o termo "virgem". No entanto, o texto hebraico original utiliza o termo ‘almah’, que significa "jovem mulher" e não implica necessariamente virgindade. Essa diferença semântica é crucial para a compreensão correta do contexto histórico e linguístico da profecia.

A Influência da Septuaginta e a Doutrina do Nascimento Virginal

 A narrativa do nascimento virginal de Jesus, presente nos Evangelhos de Mateus e Lucas, está intimamente ligada à tradução grega das Escrituras Hebraicas conhecida como Septuaginta. Em Isaías 7:14, o texto hebraico utiliza o termo ‘almah’, que significa “jovem mulher” ou “moça em idade de casar”, sem necessariamente enfatizar a virgindade. Entretanto, os tradutores da Septuaginta verteram essa palavra para o grego parthenos, termo frequentemente entendido como “virgem”.

Séculos mais tarde, o Evangelho de Mateus citou Isaías 7:14 segundo a versão da Septuaginta, aplicando-a ao nascimento de Jesus (Mateus 1:22–23). Por essa razão, muitos estudiosos sustentam que a compreensão cristã do nascimento virginal foi influenciada pela leitura grega do texto profético.

Do ponto de vista da interpretação judaica tradicional, Isaías 7:14 não constitui uma profecia messiânica referente a um acontecimento futuro distante. O contexto da passagem está relacionado à crise política enfrentada pelo rei Acaz, de Judá, no século VIII a.e.C., quando o profeta Isaías anunciou um sinal divino destinado àquela geração específica.

No texto hebraico, a palavra utilizada é ‘almah’, termo que significa “jovem mulher” e não “virgem”. A tradução grega da Septuaginta verteu ‘almah’ por parthenos, palavra frequentemente compreendida como “virgem”, interpretação posteriormente adotada pelo Evangelho de Mateus ao aplicar Isaías 7:14 ao nascimento de Jesus.

Por essa razão, muitos comentaristas judeus sustentam que a doutrina cristã do nascimento virginal encontra seu principal fundamento na leitura da Septuaginta, e não no significado original do texto hebraico. Segundo essa perspectiva, a profecia de Isaías referia-se a um sinal contemporâneo a Acaz e não a uma previsão do nascimento do Messias séculos mais tarde.

Muitos estudiosos modernos entendem que Isaías não tinha em vista uma pessoa específica conhecida por gerações futuras, mas uma criança contemporânea. O ponto principal do sinal seria o prazo: antes que a criança atingisse certa idade, os reis que ameaçavam Judá seriam derrotados (Isaías 7:15–16).

  

A Linhagem Davídica e o Critério Messiânico

Absolutamente, a descendência de Davi é um elemento relevante nas expectativas messiânicas judaicas — dado que o próprio rei Davi era da tribo de Judá —, essa condição genealógica, por si só, não é suficiente para legitimar alguém como o mashiach (ungido). As Escrituras Hebraicas apontam que o messias deverá cumprir uma série de exigências no critério profético, entre eles, o restabelecimento pleno do Reino de Israel, o que, conforme os registros históricos e religiosos disponíveis, ainda não se concretizou.

A origem da promessa messiânica remonta à bênção de Jacó sobre seu filho Judá, conforme registrada em Gênesis 49:9-10:

“Judá é um leão novo. Você vem subindo, filho meu, depois de matar a presa. Como um leão, ele se assenta; e deita-se como uma leoa; quem tem coragem de acordá-lo?

O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão.”

Esse texto tem sido tradicionalmente interpretado como uma referência ao surgimento de uma liderança messiânica dentro da linhagem de Judá, cuja autoridade será reconhecida por todas as nações. No entanto, o cumprimento literal e histórico dessa profecia permanece, até hoje como uma expectativa escatológica no judaísmo.

Para muitos estudiosos e rabinos, a Septuaginta representa uma deturpação teológica das Escrituras hebraicas, sendo considerada por alguns como o "segundo bezerro de ouro" — uma metáfora crítica que aponta para sua associação com idolatria e desvios doutrinários. Segundo essa visão, a adoção da tradução grega contribuiu para a despersonalização do Criador, ao substituir o monoteísmo judaico pela veneração de figuras humanas, interpretadas como divinas.

A descendência davídica do Mashiach não é um detalhe secundário nas Escrituras, mas um dos critérios estabelecidos pelo próprio Eterno. Desde a promessa feita a Judá (Gn 49:10), passando pela aliança firmada com Davi (2Sm 7:12-16), até as palavras dos profetas, a expectativa messiânica permanece vinculada à casa de Davi. O Salmo 89 reafirma essa promessa de forma categórica, quando o próprio Deus declara: “Fiz aliança com o meu escolhido, jurei a Davi, meu servo… Não violarei a minha aliança, nem alterarei o que os meus lábios pronunciaram. Uma vez jurei por minha santidade, e não mentirei a Davi; a sua descendência durará para sempre” (Sl 89:3-4, 34-36). Isaías igualmente confirma essa expectativa ao anunciar: “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes brotará um renovo” (Is 11:1), reafirmando que o Messias procederia da linhagem davídica.

Diante dessas declarações, este livro não pretende estabelecer um debate teológico nem convencer o leitor por meio de interpretações particulares. O propósito é apresentar o que as Escrituras afirmam e convidar cada leitor a comparar cuidadosamente os textos, examinando por si mesmo se as reivindicações posteriores harmonizam-se com o critério profético previamente estabelecido pelo próprio Eterno.

 

Releitura de Isaías 7:14

 

Uma leitura atenta e contextual de Isaías 7:14, considerando os versículos anteriores e posteriores (Isaías 7:1–16), revela que essa profecia se cumpriu aproximadamente 700 anos antes do nascimento de Yeshua (Jesus). A análise do texto mostra que a profecia foi um sinal específico dado ao rei Acaz, em seu tempo, como resposta direta à sua insegurança diante das ameaças políticas da época (cf. Isaías 7:10–11).

O personagem mencionado como Emanuel ("Deus conosco") refere-se, nesse contexto, não a uma figura futura messiânica, mas sim ao filho do próprio Acaz, o rei Ezequias. Ezequias tornou-se conhecido como um reformador espiritual de Israel, conforme registrado em II Crônicas 29–31. Seu governo foi marcado pela purificação do templo de Jerusalém, a abolição da idolatria e o restabelecimento das práticas religiosas conforme a Torá. Como consequência, o povo reconheceu novamente a presença divina entre eles — daí a expressão “conosco está Deus”, ou Emanuel.

Essa leitura é corroborada por passagens como II Crônicas 28:27 e 31:1, que demonstram a restauração do culto ao Eterno. A Shechiná — termo hebraico que se refere à manifestação da presença gloriosa de Deus — foi percebida pelo povo como um sinal de que Deus habitava novamente em meio à comunidade, em resposta à sua prática de justiça e obediência à Torá.

A Genealogia: Reflexão Crítica

 

O propósito das genealogias bíblicas é documentar a linhagem familiar, seja em ordem ascendente (como no evangelho de Lucas) ou descendente (como em Mateus), estabelecendo vínculos históricos e tribais. Diante disso, surge uma questão lógica importante: qual seria o sentido de incluir uma genealogia de Yeshua se, conforme a doutrina tradicional cristã, ele não teria pai humano, mas teria sido concebido pelo Espírito Santo?

A inclusão da genealogia em ambos os evangelhos parece contradizer essa ideia, uma vez que toda a estrutura genealógica está ancorada na figura de José, o suposto pai adotivo. Isso sugere que, nas tradições mais antigas, Yeshua era compreendido como filho biológico de José, o que reforça uma leitura menos sobrenatural e mais humana de sua origem.

Há os que alegam que Yeshua é segundo a ordem de Melquisedeque. Ora, se ele tem genealogia, é infundada tal teoria de que não tem princípio e nem fim.

A Genealogia e o Paradoxo Cristológico

 

Tanto os evangelhos de Mateus quanto de Lucas apresentam genealogias de Jesus, traçando sua ascendência até Davi. No entanto, ambas as genealogias são ligadas a José, o esposo de Maria. Se Jesus fosse realmente concebido pelo Espírito Santo, como afirma a doutrina cristã tradicional, José não seria seu pai biológico, e, portanto, Jesus não poderia ser legalmente considerado descendente de Davi, o que anularia sua legitimidade messiânica à luz da profecia.

Essa tensão entre a genealogia davídica e a concepção virginal levanta uma contradição teológica significativa. Se Yeshua é biologicamente filho de José, a doutrina do nascimento sobrenatural perde fundamento. Por outro lado, se foi gerado sem pai humano, não se enquadra na expectativa messiânica judaica, pois a linhagem tribal e real era transmitida pelo pai, conforme explicitado em Lucas 2:4.

As Escrituras Hebraicas indicam que, dentre os descendentes de Adão, o Eterno escolheu o patriarca de nome Sem (Shem) — um dos filhos de Noé (Noach) — como o ancestral da linhagem semita. Dessa linhagem descenderam Abraão, Isaque e Jacó, e dentre os filhos de Jacó, o Eterno escolheu Judá (Yehudah) como a tribo da qual viria a dinastia real. Dentre os descendentes de Judá surgiu Davi (David), a quem foi feita uma promessa eterna de continuidade dinástica:

O texto de Salmo 89:34–37 é um dos pilares da teologia da aliança davídica no Tanakh:

“Não violarei a minha aliança, nem modificarei o que saiu dos meus lábios. Uma vez jurei por minha santidade, e não mentirei a Davi: sua descendência durará para sempre, e seu trono, como o sol diante de mim. Será estabelecido para sempre como a lua, e como a fiel testemunha no céu.”

Esse salmo retoma a promessa feita por Deus a Davi em 2 Samuel 7, reafirmando que a dinastia davídica possui caráter perpétuo. A linguagem é enfática: Deus jura por Sua própria santidade e declara que não revogará Sua aliança.

Sob a perspectiva judaica tradicional, essa promessa sustenta a expectativa de um descendente de Davi — o Mashiach — que restaurará o reino de Israel. Se a descendência e o trono de Davi são eternos, então a promessa deve cumprir-se historicamente, por meio de um rei davídico legítimo que exerça sua função neste mundo.

O argumento frequentemente apresentado por comentaristas judaicos é que:

  1. A aliança com Davi é irrevogável.
  2. O trono prometido é um trono real, ligado à casa de Israel.
  3. As profecias messiânicas associadas a essa aliança incluem a reunião dos exilados, a paz universal e o conhecimento de Deus entre as nações.
  4. Enquanto essas condições não forem plenamente realizadas, a expectativa messiânica permanece voltada para o futuro.

Por isso, muitos autores judeus utilizam este salmo como evidência de que a promessa davídica ainda aguarda sua consumação plena na era messiânica.

Na época de Jesus, os judeus aguardavam a vinda do Mashiach como um descendente legítimo do rei Davi. O evangelho de Lucas 1:32–33 confirma essa expectativa popular: o messias deveria herdar o trono de seu antepassado David, e para isso, seria necessário que sua genealogia fosse estabelecida por meio da linhagem paterna, conforme era o costume vigente.

Esse é um dos argumentos mais debatidos no diálogo entre judaísmo e cristianismo.

A promessa davídica exige que o Messias seja descendente de Davi. Diversas passagens afirmam que o futuro rei viria da linhagem de Davi (2 Samuel 7:12-16; Jeremias 23:5; Ezequiel 37:24).

A questão surge porque o cristianismo tradicional ensina que José não foi o pai biológico de Jesus de Nazaré, devido à doutrina do nascimento virginal.

Do ponto de vista judaico, isso gera uma dificuldade significativa:

  • A descendência tribal em Israel é transmitida pelo pai.
  • O direito ao trono davídico está ligado à linhagem paterna.
  • Se José não foi o pai biológico de Jesus, então a genealogia de José não estabeleceria a descendência davídica de Jesus.
  • Além disso, não existe na Bíblia Hebraica o conceito de transmitir direitos dinásticos por adoção.

Por essa razão, muitos estudiosos judeus argumentam que, se José não era o pai biológico de Jesus, as genealogias dos Evangelhos de Mateus e Lucas não resolveriam o requisito messiânico da descendência davídica.

A resposta cristã tradicional costuma seguir algumas linhas:

  1. José transmitiria os direitos legais ao trono, mesmo não sendo pai biológico.
  2. Alguns cristãos afirmam que a genealogia de Lucas seria, na verdade, a linhagem de Maria, tornando Jesus descendente biológico de Davi por sua mãe.
  3. Outros argumentam que a concepção milagrosa não anularia a identidade davídica de Jesus.

Contudo, do ponto de vista da interpretação judaica clássica, essas respostas não são consideradas suficientes, porque:

  • a tribo é herdada pelo pai;
  • a Bíblia nunca apresenta a adoção como meio de transmitir a linhagem davídica;
  • os textos proféticos falam de um descendente natural ("semente", "zera") A palavra hebraica זֶרַע (zeraʿ significa literalmente “semente”, descendência, “prole”, “linhagem” ou “filho(s)”) de Davi.

Assim, o argumento judaico pode ser resumido da seguinte forma:

Se José era o pai biológico de Jesus, a descendência davídica poderia ser reivindicada, mas a doutrina do nascimento virginal fica comprometida. Se José não era o pai biológico, preserva-se o nascimento virginal, mas surge uma dificuldade para demonstrar a descendência davídica exigida pelas profecias messiânicas.

Essa tensão entre a genealogia davídica e o nascimento virginal é um dos pontos centrais do debate histórico entre judeus e cristãos sobre a identidade messiânica de Jesus.

 

O Emanuel: Contexto Histórico e Leitura Judaica

 A leitura contextual de Isaías 7:14, especialmente à luz dos versículos 1 a 16, demonstra que essa profecia foi dada como um sinal específico ao rei Acaz, em seu próprio tempo. O texto claramente se refere a um evento contemporâneo do profeta Isaías. A criança profetizada — chamada de Emanuel (“Deus conosco”) — não é outro senão o futuro rei Ezequias, filho de Acaz, como se confirma em II Crônicas 29–31. Ezequias purificou o Templo de Jerusalém, restaurou o culto ao Eterno e aboliu a idolatria, provocando um grande avivamento espiritual em Israel. Isso legitimaria o uso da expressão "Deus está conosco" aplicada a ele.

Importante destacar que o termo hebraico usado em Isaías 7:14 é ‘almah’, que significa jovem mulher, e não “virgem”, que em hebraico é ‘betulah’. Em diversos contextos bíblicos, como nas dez virgens (Mateus 25), o termo usado é de fato betulah, reforçando que o uso de almah em Isaías não sustenta a interpretação de uma concepção virginal. A tradução da Septuaginta, que verte almah como parthenos (virgem, em grego), parece refletir uma adaptação teológica posterior, com o objetivo de sustentar a doutrina do nascimento miraculoso de Jesus.

Esse pensamento da virgem, se fortaleceu a partir de concílios e formulações cristológicas, como os realizados em Niceia (325) e Constantinopla (381), que definiram oficialmente a natureza divina de Jesus:

“É o Senhor, o doador da vida, que procede do Pai, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado.”

(Credo Niceno-Constantinopolitano)

A concepção virginal, nesse contexto, visa elevar a figura de Yeshua ao status de deus encarnado, em consonância com arquétipos religiosos de outras culturas antigas, de forma a ser adorado.

 

Paralelos Mitológicos e a Influência do Pensamento Helênico

 

Diversos estudiosos têm debatido as origens e o desenvolvimento da doutrina do nascimento virginal de Jesus. Algumas correntes da pesquisa histórica e comparativa das religiões apontam semelhanças entre certos elementos da narrativa cristã e tradições religiosas do mundo helenístico e oriental, nas quais personagens extraordinários são apresentados como possuindo origem sobrenatural. A Enciclopédia da Bíblia, organizada por A. Van den Born, registra a existência dessas discussões no âmbito dos estudos bíblicos e teológicos.

A mesma obra destaca que a interpretação de Isaías 7:14 tem sido objeto de intenso debate entre exegetas. Segundo essa abordagem, diversos comentaristas entendem que a profecia originalmente se referia a acontecimentos contemporâneos ao profeta Isaías e possivelmente ao nascimento de uma figura ligada à casa real de Judá, frequentemente identificada com o rei Ezequias. Outros intérpretes, especialmente dentro da tradição cristã, veem nesse texto um significado adicional de caráter messiânico, posteriormente aplicado a Jesus pelos autores do Novo Testamento.

Essas diferentes leituras demonstram a complexidade da interpretação bíblica e evidenciam como determinadas passagens podem receber compreensões distintas conforme o contexto histórico, religioso e teológico em que são analisadas.

Considerações

Diante da análise textual, genealógica, histórica e teológica, constata-se que:

A genealogia de Jesus apresenta uma contradição se assumido que foi concebido pelo Espírito Santo;

A profecia de Isaías 7:14 teve cumprimento no contexto histórico de Acaz e Ezequias, e não pode ser lida duplamente sem forçar o texto original;

A concepção virginal não era parte da expectativa messiânica do judaísmo do Segundo Templo, nem da interpretação judaica de Isaías.

Assim, o nascimento virginal de Yeshua aparece mais como uma construção teológica helenística do que como o cumprimento literal de uma profecia hebraica. A análise crítica da tradição e dos textos aponta para a necessidade de releituras mais próximas do contexto histórico e linguístico original.

 

O Surgimento da Doutrina da Concepção Virginal e da Teologia Trinitária

 

Relatos históricos apontam que as tradições mais antigas do cristianismo não mencionavam originalmente a concepção de Jesus pelo Espírito Santo. Essa doutrina só veio a se consolidar na Ásia Menor, distante da Galileia, no contexto de debates teológicos ocorridos entre os séculos III e IV. Nesse processo de formulação dogmática, Jesus foi declarado a segunda pessoa da Trindade, e sua mãe, Maria — uma mulher judia da Galileia, esposa de José, o carpinteiro — foi posteriormente elevada ao status de Theotokos, ou seja, “mãe de Deus”.

Essa informação é registrada por Pierre Van Paassen, em sua obra Por que morreu Jesus? nas páginas 17 e 18. A reflexão proposta pelo autor revela que a teologia católica, em sua formação histórica, reconhece aspectos doutrinários que muitos cristãos evangélicos desconhecem ou não questionam, como a deificação de Maria e a natureza divina de Jesus segundo a doutrina trinitária.

Não se trata, portanto, de uma crítica exclusivamente judaica ou uma tentativa de "distorcer" a fé cristã; trata-se de uma análise fundamentada na evolução histórica das crenças dentro do próprio cristianismo institucionalizado, especialmente após os concílios ecumênicos (Niceia, 325; Constantinopla, 381).

 

O Novo Testamento ou Nova Aliança

 

Uma Análise à Luz da Escritura Hebraica

 

A maioria cristã, consideram o Novo Testamento como uma extensão ou complemento da Bíblia Hebraica (Tanakh). No entanto, essa concepção não se sustenta do ponto de vista das Escrituras judaicas. Assim sendo, o Alcorão não é uma continuação da Bíblia Hebraica, da mesma forma que os evangelhos.

Segundo o profeta Jeremias (31:30–34), o novo pacto (brit chadashah) será estabelecido exclusivamente com a casa de Israel e com a casa de Judá, e não com os povos gentios (não israelitas). Além disso, uma característica central desse pacto é que a Torá será inscrita no coração do povo, tornando desnecessário qualquer tipo de evangelização ou ensino entre as pessoas:

“Não ensinarão mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: ‘Conhecei o Eterno’; porque todos Me conhecerão, desde o menor até o maior deles...” (Jeremias 31:33)

Com base nesse texto, torna-se evidente que a era da nova aliança ainda não foi plenamente instaurada, pois continuamos vivendo num mundo em que o conhecimento ao Eterno não é universal e onde o ensino religioso ainda se faz necessário. Portanto, chamar os escritos cristãos de “Novo Testamento” ou “Nova Aliança”, representa uma antecipação teológica que não encontra respaldo nas Escrituras Hebraicas, conforme entendidas pelo judaísmo Bíblico.

É bom examinar e ver que na verdade os evangelhos não trazem consigo qualquer resquício de inspiração. O próprio escritor (Lucas) registra que fez um apanhado do que se diziam acerca de Jesus, escreveu e enviou a seu amigo Teófilo para que conhecesse acerca deste homem e os seus feitos. Em nenhuma parte dos evangelhos está a expressão profética: “assim diz o Senhor”. É notório que os evangelhos canônicos apresentam uma série de inconsistências textuais e contradições internas, o que tem sido objeto de estudo por parte de historiadores e críticos da tradição cristã. Ao longo dos séculos, diversos concílios e revisões eclesiásticas contribuíram para alterações significativas na estrutura do Novo Testamento, com o propósito de alinhar a nova doutrina emergente às cosmovisões predominantes nas religiões pagãs da Antiguidade. Essa aproximação não se deu de forma acidental, mas sim como parte de um processo de sincretismo religioso que buscava conferir legitimidade e universalidade à fé cristã nascente.

A tradição cristã, em seu processo de formação e consolidação, absorveu e reinterpretou diversos elementos simbólicos oriundos dos mitos helenísticos, estabelecendo paralelismos que contribuíram para a construção de sua narrativa teológica. Um exemplo emblemático é a figura de Kronos, destronado por seu filho Zeus — uma imagem que, em determinados segmentos do pensamento cristão, é evocada como analogia à ideia de Jesus assumindo a posição de Deus. Essa transposição simbólica revela não apenas uma dinâmica de substituição, mas também uma tentativa de conferir legitimidade à nova estrutura religiosa por meio de referências mitológicas familiares ao imaginário greco-romano.

Tal perspectiva tem alimentado discussões teológicas recorrentes acerca da identidade ontológica de Jesus: seria ele um ser humano exaltado, uma entidade divina encarnada, ou uma síntese paradoxal entre humanidade e divindade — a figura do "Deus-homem"? Essas questões permanecem centrais no debate cristológico, refletindo tensões entre tradição judaica, influências helenísticas e interpretações doutrinárias posteriores.

Importa salientar que, à luz das escrituras proféticas, não há evidências empíricas ou teológicas robustas que sustentem a afirmação de que vivemos sob a nova aliança ou na era messiânica. Conforme descrito em Jeremias 31:32-33, essa era seria caracterizada por justiça social e prosperidade coletiva — elementos ainda ausentes em larga escala. Assim, a proclamação de que a nova aliança já se concretizou pode ser interpretada, sob uma perspectiva crítica, como uma construção teológica que visa atender expectativas escatológicas, mas que carece de respaldo histórico e material.

Diversos segmentos do cristianismo professam a crença de que Jesus é a manifestação plena do Deus verdadeiro, chegando inclusive a defender que esse nome deveria constar no TANACH — a Bíblia hebraica. No entanto, à luz da tradição judaica, é fundamental recordar que o nome de Deus é considerado eterno, imutável e intransferível. Este nome, entendido como um memorial perpétuo — ledor vador, “de geração em geração” — não pode ser atribuído a nenhuma figura humana, independentemente de sua relevância espiritual ou histórica.

No contexto do evangelho segundo Lucas, a profecia pronunciada por Zacarias — sacerdote e pai de João Batista — oferece um vislumbre das expectativas messiânicas predominantes entre os judeus do período do Segundo Templo. O trecho de Lucas 1:69–74 articula uma esperança concreta de redenção nacional e espiritual, expressa nos termos de libertação dos inimigos e restauração do culto a Deus em liberdade: “E nos levantou uma salvação... para nos livrar dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam... para que, livres da mão dos nossos inimigos, o sirvamos sem temor.”

Essa formulação reflete uma concepção messiânica profundamente enraizada na tradição profética hebraica, que associava a vinda do ungido à instauração de justiça, paz e soberania divina sobre Israel. No entanto, a leitura crítica desse texto sugere que tais expectativas não se concretizaram de forma palpável na experiência histórica subsequente, gerando desilusão entre os que aguardavam uma intervenção messiânica de caráter político e escatológico. A ausência de transformação estrutural — seja no plano político, seja no plano social — contribuiu para o surgimento de interpretações teológicas alternativas, que deslocaram o foco da redenção coletiva para uma salvação espiritual de cunho individual.

Esse deslocamento hermenêutico, promovido pelas comunidades cristãs primitivas, marca uma inflexão significativa na compreensão do messianismo judaico, convertendo-o em uma narrativa de redenção interior e transcendência, em contraste com as expectativas concretas de libertação nacional que permeavam o imaginário judaico da época.

Essa tensão entre expectativa escatológica e realidade histórica permanece como um ponto de inflexão nas discussões teológicas entre judaísmo e cristianismo, especialmente no que diz respeito à identidade do messias e à natureza da redenção prometida.

Os Judeus estavam sob o poder de Roma, a situação política e religiosa piorou quando no ano 70 EC houve a destruição do 2ºtemplo e a diáspora. Muitas pessoas morreram proveniente do cerco a Jerusalém. Onde estava o messias para livrar o povo? Onde ficou a profecia do Sacerdote Zacarias, que serviria a partir desse momento sem temor (de Roma)?

Não precisamos de muita perspicácia para observar que a profecia falhou, assim como muitas outras.

A crença baseada em milagres é incoerente e não justifica a crença. O que determina é a profecia que diz como será o reino messiânico. Se ele já iniciou ou se vai iniciar! Se o mashiach já veio ou virá, é uma questão de conhecimento às profecias e não apenas porque alguém disse. Muitas foram enganadas por espíritos que falam como santo, mas na verdade só enganam. Temos o exemplo do rei Acabe que foi enganado (I Reis 22.19-23).

A profecia que vai culminar com a vinda do mashiach, se cumprirá da seguinte forma: “aproxima-se os dias - diz o Eterno – quando escolherei, dentre os rebentos de David, um justo que governará como rei, que prosperará e saberá praticar justiça e retidão na terra. Em seus dias Judá será redimida e Israel viverá em segurança, e o nome pelo qual será chamado significará: O Eterno é retidão” Jeremias 23:5-6. Afirmar que o mashiach não veio, está no fato do não cumprimento das profecias.

A aclimatação de Jesus como mashiach por seus seguidores, e sua entrada em Jerusalém montado em um jumento, é um evento central nos evangelhos. No entanto, o texto que apresenta levanta um ponto crucial: a principal profecia messiânica, a de Israel habitar em segurança, não se concretizou. A justificativa de alguns defensores da fé cristã, de que a falta de segurança se deu pela incredulidade dos judeus em Jesus, é posta em questão. Na verdade, o povo judeu sempre esperou e espera com uma ótica bíblica, jamais com intuito de rejeitar, mas identificar segundo as escrituras a veracidade. Muitos homens se apresentaram como messias, Jesus não foi o único.

 

O Mashiach Segundo as Profecias

 

Para o judaísmo, os profetas descrevem sinais específicos para o reconhecimento do Mashiach, esperança que permeou gerações passadas e continua viva entre os judeus.

Conforme as profecias, o Mashiach (ungido) não é um ser sobrenatural vindo do céu. Ele será um homem, semelhante a Moisés, conforme Deuteronômio 18, e descendente da tribo de Judá, como indicado em Números 24:17-19. Sua função incluirá a redenção espiritual, ensinando a Torá (lei), pois é através dela que o homem se aproxima do Eterno.

A redenção política e espiritual do povo de Israel acontecerá com a vinda do Mashiach. Isso envolverá a reunião dos judeus dispersos, com seu retorno à terra prometida a Abraão e sua descendência (Gênesis 13:14-18). Com a chegada da era messiânica, Jerusalém será restaurada à sua glória espiritual. O processo de purificação iniciará uma era de perfeição moral para toda a humanidade, promovendo a coexistência harmoniosa de todos os povos, livres de guerra, medo, ódio e intolerância (Isaías 52:1; 2:11; Miqueias 5:4; I Samuel 9:16; II Samuel 3:18; Salmos 72:1-12; Zacarias 14:11).

Este homem, designado por Deus, não virá para morrer pelos pecados dos homens, nem para que seu sangue os salve. O sangue humano é considerado ineficaz para a salvação. No Templo, a oferta de sacrifícios de animais impuros é proibida. A ideia de oferta de sangue humano a deuses é associada a religiões pagãs, como no Mitraísmo, onde a expressão "O sangue de Mitra tem poder" e o derramamento de sangue animal sobre os adeptos eram práticas comuns.

O Mashiach será um grande líder e sábio da Torá, que ensinará o caminho do Eterno, e seu reino se estenderá "de uma à outra extremidade da terra": "E ele permanecerá e apascentará o povo na força do Senhor, na excelência do nome do Senhor seu Deus; e eles permanecerão porque agora ele será grande até os confins da terra" (Miqueias 5:4).

É importante distinguir entre restaurar e substituir, entre edificar e destruir. Nas profecias messiânicas da tradição judaica, o Mashiach é apresentado como aquele que restaurará Israel, reunirá os exilados, estabelecerá a paz entre as nações e conduzirá o mundo ao reconhecimento do Eterno. Sua missão não consiste em transferir a esperança para outra realidade, mas em transformar e restaurar este mundo sob a soberania divina.

Sob a perspectiva judaica, muitas das profecias associadas ao Messias possuem um caráter concreto, histórico e coletivo. Por essa razão, a afirmação atribuída a Jesus de que "o meu reino não é deste mundo" (João 18:36) é frequentemente vista como incompatível com a expectativa messiânica tradicional, que espera uma redenção visível na Terra e não apenas uma suposta realidade espiritual.

Além disso, algumas passagens dos Evangelhos apresentam Jesus declarando: "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada" (Mateus 10:34). Embora a interpretação cristã costume entender essa passagem de forma simbólica, como referência às divisões provocadas pela escolha da fé, críticos da identificação de Jesus como o Messias observam que tal linguagem contrasta com as descrições proféticas da era messiânica, marcada pela reconciliação, pela unidade e pela paz universal.

Na visão judaica, o Mashiach não vem para inaugurar um período de divisão entre os povos, mas para restaurar a harmonia da criação sob a autoridade do Eterno. Seu reinado será reconhecido não apenas por transformações espirituais individuais, mas também por mudanças concretas e universais que afetarão Israel e todas as nações. Por isso, muitos judeus entendem que as condições descritas pelos profetas ainda aguardam seu pleno cumprimento, permanecendo viva a expectativa pela vinda do verdadeiro Mashiach.

 

 

A Questão da Dupla Vinda do Messias

A ideia de uma dupla vinda do Messias é questionada, argumentando que se a paz e a redenção não foram alcançadas na primeira vez, uma segunda tentativa não faria sentido. O texto cita o exemplo de Bar Kokhba, que, apesar de ter iniciado os alicerces do Templo e ser da tribo de Judá, não foi o Mashiach esperado. Foi posteriormente rejeitado por ter feito alianças proibidas pelo Eterno. É enfatizado que não há precedentes para uma segunda vinda de figuras messiânicas que falharam, como Bar Kokhba ou Shabetai Tzvi...

Um dos principais pontos de divergência entre o judaísmo e o cristianismo está relacionado à ideia das duas vindas do Messias. A teologia cristã ensina que Jesus cumpriu parte das profecias messiânicas em sua primeira vinda e que retornará no futuro para completar aquelas que ainda não se realizaram, como o estabelecimento da paz universal e a redenção definitiva do mundo.

A tradição judaica, contudo, não encontra essa distinção nas Escrituras Hebraicas. Segundo a compreensão judaica clássica, o Messias deverá cumprir sua missão de forma reconhecível durante sua manifestação, realizando as promessas associadas à era messiânica, tais como a reunião dos exilados de Israel, a restauração nacional, a paz entre as nações e o pleno conhecimento de Deus na Terra.

Sob essa perspectiva, a doutrina das duas vindas é vista como uma interpretação desenvolvida posteriormente para explicar o fato de que as profecias tradicionalmente associadas ao Messias não foram concretizadas durante a vida de Jesus. Assim, o que para o cristianismo representa uma revelação progressiva do plano divino, para o judaísmo constitui uma hipótese teológica que não encontra respaldo explícito no texto bíblico hebraico.

Essa diferença de entendimento permanece como um dos temas centrais no diálogo entre judeus e cristãos. Enquanto os cristãos aguardam a segunda vinda de Jesus para o cumprimento final das promessas messiânicas, o judaísmo continua aguardando a primeira manifestação do Messias, quando todas essas promessas serão realizadas de maneira visível e inequívoca.

 

Paralelo - Moisés o Libertador

 

O texto traça um paralelo entre o papel do Mashiach e a liderança de Moisés na libertação de Israel do Egito. Destaca que quando o Eterno tirou Israel do Egito "com mão forte", não houve necessidade de guerra santa, e o povo não precisou "crer em Moisés" (Êxodo 6:10-12) para que ele fosse enviado ao faraó. A maioria do povo não creu nas palavras de Moisés.

Moisés é apresentado como o grande libertador, que retirou Israel do Egito (Mitsraim) sem soldados e sem guerra. A manifestação do poder do Eterno levou o faraó a libertar o povo, que saiu livremente. Um dos argumentos frequentemente apresentados na tradição judaica diz respeito à profecia de Deuteronômio 18:18, na qual Deus promete levantar um profeta semelhante a Moisés. A questão central é: em que sentido esse profeta seria semelhante ao grande líder de Israel?

Moisés não foi apenas um mestre espiritual. Ele foi também o libertador do povo hebreu da escravidão egípcia, o mediador da aliança no Sinai, o legislador que transmitiu a Torá e o líder que conduziu Israel rumo à sua identidade nacional. Sua missão produziu transformações concretas e visíveis na vida do povo.

Durante o período romano, muitos judeus aguardavam um líder enviado por Deus que restaurasse a soberania de Israel, trouxesse justiça e libertasse a nação da dominação estrangeira. Essa expectativa encontrava respaldo em diversas passagens proféticas que descrevem uma era de paz, segurança e restauração nacional.

Sob essa perspectiva, alguns argumentam que, se Jesus fosse o profeta prometido semelhante a Moisés, seria esperado que ele realizasse uma libertação histórica comparável à realizada no Êxodo. No entanto, a ocupação romana permaneceu, Jerusalém continuou sob domínio estrangeiro e, algumas décadas depois, o Segundo Templo foi destruído. Para muitos judeus da época, esses acontecimentos reforçaram a conclusão de que as promessas messiânicas ainda não haviam sido cumpridas.

Essa compreensão ajuda a explicar por que grande parte do povo judeu não reconheceu Jesus como o Messias prometido. A expectativa predominante não era apenas por ensinamentos espirituais, mas pela concretização das profecias relacionadas à redenção nacional, à paz universal e ao restabelecimento de Israel.

O debate entre as interpretações judaica e cristã permanece até os dias atuais. Enquanto o cristianismo entende que a missão de Jesus teve um caráter primordialmente espiritual e que muitas profecias serão cumpridas em uma segunda vinda, o judaísmo tradicional sustenta que o Messias deverá cumprir todas as promessas messiânicas durante sua manifestação, trazendo resultados concretos e reconhecíveis para Israel e para o mundo.

Mesmo diante das dificuldades, das murmurações e dos frequentes atos de incredulidade que marcaram a caminhada pelo deserto, o plano divino para Israel não foi frustrado. Episódios como a rebelião de Corá, Datã e Abirão demonstram que houve resistência à liderança estabelecida por Deus e questionamentos constantes quanto ao propósito da jornada. Ainda assim, essas crises não impediram o cumprimento da promessa feita aos patriarcas.

A história do Êxodo revela que a fidelidade de Deus foi maior do que as falhas humanas. Embora uma geração tenha perecido no deserto por causa de sua desobediência, a nação de Israel continuou existindo e avançando em direção ao destino que lhe havia sido prometido. Nenhuma rebelião, dúvida ou conflito interno foi capaz de anular a aliança divina.

Ao final da jornada, Israel entrou na terra de Canaã, não porque tivesse sido perfeito em sua caminhada, mas porque o Eterno permaneceu fiel à Sua palavra. Essa realidade ensina que os propósitos de Deus não dependem da perfeição humana para se cumprirem. As dificuldades podem retardar o processo, gerar consequências e trazer sofrimento, mas não têm o poder de destruir aquilo que o Eterno determinou realizar.

A entrada em Canaã tornou-se, assim, um testemunho da fidelidade divina e da certeza de que as promessas de Deus permanecem firmes, mesmo quando os seres humanos vacilam em sua fé.

 

A Persistente Esperança Judaica no Mashiach

 

A comunidade judaica mantém uma expectativa constante pela vinda do Mashiach, uma esperança que persiste, mesmo que demore.

No período em que pessoas declararam Jesus como Mashiach, acreditaram nele e expressaram a esperança de que ele restauraria Israel. No entanto, o texto aponta que essa restauração não se concretizou. Os próprios evangelhos registram essa expectativa: a profetisa Ana aguardava o restabelecimento do reino de Israel (Lucas 1:38), e o sacerdote Zacarias esperava a libertação das mãos dos opressores e inimigos (Lucas 1:70-74). A crença de muitos, segundo o argumento, não resultou na concretização do reino prometido, pelo contrário, Jesus afirmava que "o meu reino não é deste mundo".

Expectativa messiânica no judaísmo

O Mashiach é esperado como um líder humano — um descendente do rei Davi — que realizará objetivos concretos e visíveis neste mundo:

  • Restauração do reino de Israel(reunificação das tribos)
  • Reconstrução do Temploem Jerusalém
  • Paz universal("a espada não levantará nação contra nação")
  • Conhecimento de Deuspor toda a terra
  • Fim da opressão e do exílio

O ponto crítico

Como você observou, do ponto de vista judaico, Jesus não cumpriu esses critérios objetivos:

  1. Israel não foi restaurado como reino soberano durante sua vida.
  2. O Templo continuou de pé por décadas, mas não houve paz duradoura — pelo contrário, foi destruído em 70 d.C.
  3. A guerra e a opressão não cessaram.

Por isso, a visão judaica entende que ele não pode ser o Mashiach, pois as promessas messiânicas descritas nos profetas (Isaías 11, Jeremias 33, Ezequiel 37, etc.) não se realizaram.

A resposta cristã

O cristianismo reformulou a compreensão do Messias em duas vindas:

  • Primeira vinda: Messias sofredor (sacrifício pelos pecados), Texto usual do cristianismo, Isaías 53
  • Segunda vinda: Messias reinante, que cumprirá as promessas de restauração

O verso que ele citou — "O meu reino não é deste mundo" (João 18:36) — é usado para argumentar que o reino era espiritual, não político. Já a perspectiva judaica entende que isso representa uma mudança no conceito messiânico original das Escrituras Hebraicas.

Reino Político no Contexto Espiritual

Na Bíblia Hebraica (Tanakh), não existe separação rígida entre o político e o espiritual. O rei de Israel era visto como representante de Deus na terra. O reino político de Israel era uma expressão do reinado de Deus.

Características do reino político-espiritual em Israel:

Tabela

Dimensão Política

Dimensão Espiritual

Rei humano (descendente de Davi)

Deus como Rei supremo

Território físico (Canaã)

Terra prometida por Deus

Leis civis e penais

Torá como lei divina

Exército e defesa

Deus como guerreiro que luta por Israel

Templo como centro nacional

Templo como morada de Deus

O rei terreno era o "ungido" (Mashiach) — um líder político que deveria governar segundo a vontade de Deus. Quando o reino político era justo, o espiritual estava bem. Quando o rei se desviava para a idolatria, ambos sofriam as consequências.

A expectativa judaica

O judaísmo nunca aceitou essa separação. Para a visão judaica, um reino puramente espiritual não é a promessa messiânica. Os profetas prometeram:

  • Um governo real e visível (Isaías 9:6-7)
  • Paz entre as nações (Isaías 2:4)
  • Um rei que julgará com justiça os pobres (Isaías 11:3-5)
  • O conhecimento de Deus enchendo a terra (Habacuque 2:14)

Tudo isso é político e espiritual simultaneamente. Não há distinção. O Messias judeu é um rei concreto que estabelece um governo concreto com consequências espirituais.

 

Resumo

Um reino político no contexto espiritual significa que Deus governa através de estruturas humanas visíveis. Para o judaísmo, política e espiritualidade são inseparáveis — o reinado de Deus se manifesta num reino real neste mundo. Para o cristianismo, o reino de Deus começa no coração e um dia se manifestará plenamente, mas não está identificado com nenhum governo terreno atual.

  

A Esperança Messiânica

 

A esperança messiânica judaica está fundamentada em profecias claras, como a de Miquéias 5:1-4:

"E tu, Bet-Léhem (Belém) de Efratat, és muito pequena para ser contada entre os milhares de Judá, mas de ti sairá, para Mim, alguém que há de ser o condutor de Israel, cuja origem remontará ao passado distante. Entretanto, Ele os entregará (a seus inimigos) pelo tempo que leva a parturiente até dar à luz. Então o resto de teus irmãos retornará com os filhos de Israel. Ele se erguerá e liderará com a força que lhe concederá o Eterno, seu Deus; e habitarão (em paz), porque ele se terá engrandecido até os confins da terra, e isto assegurará a paz..."

Para justificar o não cumprimento das profecias messiânicas por parte de Jesus, a ideia de uma segunda vinda foi introduzida. A intenção, segundo a análise apresentada, é sugerir que as profecias que não foram cumpridas na primeira vinda serão realizadas nessa suposta segunda vinda.

A Persistente Esperança Judaica: Um Chamado ao Retorno e à Aliança.

Que ninguém se engane, e que não culpem os judeus. No início, alguns deles creram em Jesus. A entrada de gentios na comunidade cristã ocorreu apenas muitos anos depois, portanto, a falta de adeptos não foi o problema.

A crença no retorno a Israel, já profetizada, está se concretizando em massa com a formação do Estado de Israel em 1948. Muitos judeus são impulsionados pelo Eterno a retornar (teshuvá) à terra prometida a Abraão (Gênesis 12:7). A visão do vale de ossos secos de Ezequiel 37 é uma verdade que se realizará em sua plenitude, independentemente de qualquer fator, pois a boca do Eterno o disse.

"Dar-te-ei à tua descendência a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o seu Deus" (Gênesis 12:7; 17:8).

"Porque os retos habitarão a terra, e os íntegros habitarão nela" (Provérbios 2:21).

A terra de Israel será habitada pelo povo da aliança, uma aliança feita com Israel:

"...se tudo isto que estabeleci se desfizer sem Minha ordem – diz o Eterno –, então também a semente de Israel deixará para sempre de ser uma nação sob Minha proteção..." (Jeremias 31:33-36).

"Desperta, desperta, reveste-te de tua fortaleza, ó Tsion (Sião)! Veste-te com as roupas de tua glória, ó Jerusalém, cidade santa! Pois não tornará a entrar em ti nem incircunciso nem impuro" (Isaías 52:1).

 

Descendente da Mulher e Abrão

 

Com a queda do homem no Gan Éden (Jardim do Éden), e a promessa de restabelecê-lo, dá a entender que o descendente da mulher será o responsável por guiar a humanidade de volta à vida original adâmica. É fundamental entender que não se trata de um homem vindo do céu ou de um filho de virgem, mas sim de um filho de uma mulher (Gênesis 3:15).

Os descendentes de Adam (Adão) tomaram rumos diversos, mas o Eterno, após longos anos — aproximadamente 2.000 anos da criação do homem —, escolheu um homem e estabeleceu um pacto com Abraão, nosso pai, e não há outro igual, é o pai da aliança, brit milá ou circuncisão. Não é um pacto provisório ou que seria substituído por algo maior. Ele foi estabelecido para ser uma "Bênção":

"...em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra" (Gênesis 28:14; 22:17-18).

O Messias que há de vir também será fruto deste pacto estabelecido com Abraão. Dessa forma, a palavra do Eterno (Gênesis 3:15) se cumpre plenamente em Abraão Avinu (nosso pai). A bênção, então, virá inequivocamente por intermédio da descendência de Abraão. A sequência deixada é: o Legado da Serpente, a Perseguição aos judeus e a Aliança Eterna estabelecida com Abraão e os descendentes.

A serpente, que levou a humanidade à idolatria na época de Abraão, foi "pisada" quando o pacto da circuncisão foi estabelecido. No entanto, ela não morreu e continua a afligir o povo judeu, "ferindo o calcanhar" (Gênesis 3:15) através das perseguições sofridas ao longo dos milênios. Milhões de judeus foram mortos por se recusarem a negar o pacto eterno. A Inquisição é um dos exemplos históricos em que a Igreja foi responsável pela morte de incontáveis judeus, tudo em nome de uma fé e da falsa acusação de que os judeus teriam matado Jesus.

Quem realmente matou Jesus, furando com uma espada, foi um soldado romano. Deus nos livre se tivesse sido um soldado judeu! Roma, no entanto, nunca é acusada desse fato, que está expresso nos evangelhos. Somente os romanos tinham o poder de executar alguém, já que o governo pertencia a eles.

De outro prisma, os cristãos não deveriam se indignar, pois, segundo a fé cristã, Jesus precisava morrer para salvar seus seguidores. Se Jesus não tivesse morrido, os crentes nele, estariam perdidos. Portanto, em vez de revolta, deveria haver gratidão. Se alguém contribui para a salvação, a atitude correta é de agradecimento, não de revolta!

Ao longo das gerações, o Eterno Deus, prova que Israel, descendente de Abraão nosso pai, possui a função sacerdotal (Êxodo 19:6). A aliança feita não passará; ela é eterna: "...e será Minha aliança em vossa carne (circuncisão), para uma aliança eterna" (Gênesis 17:13-14). A aliança que o Eterno fez com Abraão Avinu é suficiente para trazer salvação a todos que crerem e se achegarem a Israel, o povo da promessa (Jeremias 31:34-35).

 

Aliança com Israel

 

A aliança estabelecida entre o Eterno e Abraão ocupa um lugar central na tradição bíblica. Em Gênesis 17, Deus declara: "Estabelecerei a Minha aliança entre Mim e ti, e entre a tua descendência depois de ti, em suas gerações, por aliança eterna, para ser o teu Deus e o Deus da tua descendência depois de ti" (Gn 17:7).

Como sinal visível dessa aliança, foi instituída a brit milá (circuncisão), que deveria ser observada por Abraão, seus descendentes e todos aqueles que fossem incorporados à sua casa. O próprio Abraão recebeu esse sinal aos noventa e nove anos de idade, tornando-se exemplo de obediência e compromisso com o pacto divino (Gn 17:24-27).

Na tradição judaica, a circuncisão continua sendo até hoje um dos principais símbolos da aliança entre o Eterno e o povo de Israel. Da mesma forma, aqueles que ingressam formalmente na comunidade judaica por meio da conversão passam por um processo que inclui a aceitação dos mandamentos e, no caso dos homens, a brit milá.

Sob essa perspectiva, a aproximação ao Deus de Israel não é vista apenas como uma declaração de fé, mas também como uma identificação concreta com a aliança e com o povo que a recebeu. A relação entre universalidade da fé e pertencimento à aliança permanece um dos temas mais debatidos entre judeus e cristãos ao longo da história.

 

O Arrependimento e o Deus que salva

A mensagem do arrependimento percorre toda a Torá e os escritos dos profetas. Desde os primeiros relatos bíblicos, o Eterno convida o ser humano a abandonar seus maus caminhos e retornar a Ele. Esse retorno, conhecido na tradição judaica como teshuvá, não significa apenas remorso pelos erros cometidos, mas uma transformação sincera de vida e uma reconciliação com Deus.

Muitas pessoas acreditam estar distantes da salvação por desconhecerem esse convite divino. No entanto, as Escrituras apresentam um Deus que está sempre disposto a receber aqueles que se voltam para Ele com sinceridade. Os profetas repetidamente conclamam Israel ao arrependimento, assegurando que a misericórdia do Eterno é maior do que as falhas humanas.

Dentro dessa perspectiva, a salvação não depende da intervenção de outro ser, mas do próprio Deus. O profeta Isaías registra uma das declarações mais enfáticas das Escrituras: "Eu, Eu sou o Eterno, e fora de Mim não há salvador" (Isaías 43:11). Em outra passagem, o Eterno afirma: "Não há outro Deus além de Mim, Deus justo e Salvador não há além de Mim" (Isaías 45:21).

Essas palavras destacam a exclusividade do Eterno como fonte de redenção, misericórdia e libertação. Aquele que criou os céus e a terra é também aquele que perdoa, restaura e salva. Por isso, o chamado dos profetas não é para buscar outro mediador da salvação, mas para retornar ao próprio Deus com um coração arrependido e obediente.

A esperança bíblica repousa na certeza de que o Eterno permanece fiel à Sua aliança e atento ao clamor daqueles que O buscam. O caminho do arrependimento continua aberto, e a promessa divina permanece viva: quem se volta sinceramente para Deus encontra perdão, restauração e vida.

A circuncisão não foi dada exclusivamente aos filhos biológicos de Abraão. Desde sua origem, o sinal da aliança alcançava também aqueles que, embora não descendentes de sangue, integravam sua casa e aceitavam fazer parte da comunidade da aliança. Isso demonstra que a relação com Deus, na tradição bíblica, não se limitava à herança genética, mas também envolvia compromisso, pertencimento e fé.

Segundo o relato bíblico, quando Deus fez a aliança com Abraão, a circuncisão deveria ser aplicada não somente aos seus filhos, mas também a todos os homens que faziam parte de sua casa, inclusive servos e estrangeiros incorporados à sua comunidade.

"Será circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por teu dinheiro; e a minha aliança estará na vossa carne por aliança perpétua."
— Gênesis 17:13

O texto enfatiza que a circuncisão era o sinal da aliança para todos os que pertenciam à casa de Abraão, independentemente de serem seus descendentes diretos.

Além disso, a Torá prevê que o estrangeiro que desejasse participar plenamente da vida religiosa de Israel deveria ser circuncidado:

"Porém, se algum estrangeiro se hospedar contigo e quiser celebrar a Páscoa do Senhor, seja circuncidado todo homem da sua casa; então se chegará e a celebrará; e será como o natural da terra."

— Êxodo 12:48

Do ponto de vista judaico tradicional, a circuncisão (brit milá) tornou-se o sinal da aliança entre Deus e o povo de Israel, transmitida aos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó, mas sempre aberta ao estrangeiro que se unisse à comunidade de Israel.

 

A Inexistência de Imagem Divina e a Proibição

 

   O Deus de Israel é invisível e não deu nenhuma semelhança de Si, justamente para que o ser humano não criasse imagens esculpidas e Lhe atribuísse uma forma. Nos Dez Pronunciamentos (Mandamentos), foi expressamente proibido fazer qualquer imagem ou semelhança divina. Deus não poderia transgredir Sua própria palavra, oferecendo à humanidade um homem para ser Sua imagem na terra. Quando Paulo afirma que Jesus é a imagem de Deus, o judaísmo prefere permanecer com a proibição da Torá, pois o Eterno jamais ensinaria algo contrário à Sua própria lei, dando ao homem uma imagem de Si.

   Para se achegar a Deus, é fundamental humilhar-se, orar e converter-se (II Crônicas 7:14-15). O povo judeu sempre desfrutou desse privilégio, tendo o Yom Kipur (Dia do Perdão) como uma data especial. O judeu jamais dependeu de outro salvador, mesmo após a destruição do Primeiro Templo. Hoje, com o Segundo Templo também destruído, a convicção é de que não há necessidade de outro salvador, pois já se tem o Salvador eterno.

 

O Nome para a Salvação

 

   A salvação do povo de Israel está intrinsecamente ligada ao nome do Eterno. Como está escrito: "E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Eterno (YHVH) será salvo..." (Joel 2:32).

   Muitas discussões têm surgido, afirmando que Israel, o povo da Torá, não conhece o nome de seu Deus. Se enganam aqueles que fazem tal afirmação leviana. Os homens fiéis sempre souberam qual nome clamar na hora da angústia.

A questão debatida é: Qual o nome que salva?

Nosso objetivo é demonstrar, com base na Torá, qual nome devemos invocar.

A Santidade do Nome Divino e a Proibição da Blasfêmia

Nós, judeus, estamos proibidos de blasfemar o nome de Deus em qualquer idioma. Contudo, é fundamental saber que o nome de Deus está escrito no Sefer Torá (rolo da Torá) com as quatro consoantes Yod, He, Vav, He (YHVH), sem as vogais.

No movimento cristão, alguns líderes aplicam o nome do personagem bíblico Josué (Yeshua ou Yehoshua) como se fosse o "novo nome" do Eterno. No entanto, um olhar atento às escrituras revela que o nome de Deus é Eterno e, por ser Eterno, não muda, portanto sem chance de “novo nome”. Diversos personagens bíblicos tiveram seus nomes alterados devido a uma nova função ou destino que passariam a cumprir. Foi o caso de Oseias, filho de Nun, que recebeu o nome de Yehoshua ou Yeshua. O fato de esse nome conter duas consoantes do nome de Deus (YH) leva muitos leigos a crerem que este é o nome do Deus de Israel.

Entretanto, o mandamento de Êxodo 20 proíbe usar o nome de Deus corriqueiramente ou em vão. O nome sagrado, conhecido como tetragrama, jamais foi dado a homem algum. Em outras palavras, era proibido aos pais darem aos seus filhos o nome pessoal do Eterno. Josué contém parte do nome de Deus, mas este não é o nome de Deus. Outros homens israelitas também tiveram parte do nome de Deus em seus nomes, como Yermiahu (Jeremias), Yeshayahu (Isaías), Yoel (Joel), entre outros. Nós, judeus, somos ordenados pelo Eterno a obedecer aos juízes e sacerdotes que nos ensinam; quem não os ouvir, sofrerá graves consequências. Josué (Yehoshua, Yeshua) nunca foi o nome de Deus. Em nenhuma parte, esse nome foi adorado, servido ou reverenciado como o nome de Deus. Caso contrário, o povo já estaria adorando esse nome desde a entrada em Canaã. É evidente que os sábios sabem o significado do nome de Josué.

O Tetragrama sagrado é exclusividade do Deus de Israel, e esse nome é eterno, portanto, nunca será trocado (Êxodo 3:15). Infelizmente, nas traduções atuais para o português, o Tetragrama (YHVH) não aparece. Para encontrá-lo, é necessário consultar o Tanakh (Bíblia judaica).

A maior honra que o ser humano pode dar a Deus é não blasfemar Seu nome, valorizando-o e não o tomando em seus lábios de maneira fútil. Lembremos do texto que nos mostra a necessidade do nome do Eterno. Os judeus sempre desfrutaram dessa bênção: "e se o Meu povo, que é chamado pelo Meu Nome, se curvar, orar e buscar a Minha face, e retornar dos seus maus caminhos, então Eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e curarei a sua terra" (II Crônicas 7:14). No mundo, há muitos deuses e muitos senhores; contudo, para o judaísmo, há um só Deus e Senhor: "Shemá Israel, Adonai (YHVH) Elohenu, Adonai Echad" – "Escuta, Israel! O Eterno é nosso Deus, o Eterno é um!" (Deuteronômio 6:4).

 

 

Qual Aliança com Israel (Pacto)?

 

Esta é a aliança da circuncisão (Brit Milá), realizada no oitavo dia de vida. Para o convertido, não há uma idade específica, pois o próprio Abraão Avinu (nosso pai) se circuncidou aos 99 anos (Gênesis 17:24). Dentro deste pacto, podemos entender por que Israel é um reino sacerdotal e uma nação santa: "E vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e um povo santo!" (Êxodo 19:6).

Este é o motivo pelo qual Israel tem sido perseguido. Os povos temem que o reino de Israel seja implantado e acabe com as organizações religiosas existentes. Contudo, é importante ressaltar que Israel jamais implantará um reino à força. Somente na era do Mashiach haverá o retorno do Eterno a Tsion (a Shechiná). Não se engane: o retorno de Deus a Tsion não será em forma humana. A Shechiná, a glória do Eterno, será vista em toda a terra, da mesma forma como ocorreu no passado, quando Ele falou com a nação de Israel no Monte Sinai. "Moshé disse ao povo não temais, pois Deus veio para vos experimentar e para que o Seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis" (Êxodo 20:17-18). O Eterno manifestou-se aos olhos de Israel não com forma humana; o povo pediu que Deus não falasse diretamente, pois Sua voz causou temor, e solicitaram que Moshé transmitisse a instrução (Êxodo 20:18-21).

Este povo que ouviu a voz de Deus é o servo (Israel) que tem sido ultrajado e, por sua função na terra, tem restaurado muitos através da Sagrada Torá (Lei). Este povo tem sido o guardião da Torá.

 

Isaías 53: Uma Interpretação Judaica

 

O Servo Ultrajado: Israel em Isaías 53

É fundamental compreender como o Eterno se refere a Israel por meio dos profetas. Israel é designado como o servo e a luz para as nações, em quem o Eterno será glorificado (Isaías 49:3 e 6; 44:21). De acordo com os escritos sagrados, Israel recebeu a incumbência de ser luz e acolher as nações que se convertem. Achegar-se a este povo significa entrar na aliança eterna estabelecida com Abraão, nosso pai (Gênesis 17:13-14). É importante notar que a promessa não foi feita apenas aos filhos biológicos, mas também a estrangeiros e escravos.

Isaías 53, um poema profético, conforme uma tradução mais precisa, é frequentemente mal interpretado. Os teóricos da morte de Jesus utilizam esse texto, mas o profeta, na verdade, se refere a Israel na condição de sacerdócio e nação santa (Êxodo 19:6). No sofrimento ("pisaduras") deste povo, o gentio tem recebido o privilégio de achegar-se ao Eterno, pois a lei foi dada a Israel, e as outras nações não a quiseram inicialmente. No entanto, a nação que se converte, abraçando a aliança (circuncisão) e guardando o sábado (Isaías 56:6-7), terá seu nome como um memorial eterno. Lembremos que Israel é luz para as nações (Isaías 42:1,6; 43:12) e que a Torá foi dada a Israel na condição de guardião.

O Servo Ultrajado: Uma Análise de Isaías 53 sob a Perspectiva Judaica

O texto de Isaías 53, frequentemente interpretado de diversas maneiras, é aqui apresentado sob uma perspectiva judaica, onde o "servo" mencionado não é uma figura individual, mas sim a nação de Israel.

"Quem teria acreditado no que nós (as nações) ouvimos, e para quem foi revelada a ação do Eterno? Porque ele (o povo de Israel) brotou como planta tenra e como raiz em terra seca. Não tinha nem forma nem beleza; era visível que não tinha boa aparência; quem o apreciaria? Foi depreciado e abandonado por todos, como uma pessoa atormentada e constantemente enferma, como alguém de quem escondemos nossa face, sendo desprezado e desconsiderado. Na verdade, eram os nossos sofrimentos que (Israel) suportava, e as dores que o oprimiam, mas nós o considerávamos um ser aflito, golpeado e ferido por Deus. Ferido estava, porém, por nossas transgressões, e oprimido por nossas iniquidades; seu penar era para nosso benefício e, através de suas chagas (seu exílio), fomos curados. Todos nós como ovelhas (sem pastor), nos desencaminhamos. Cada qual se voltou para seu próprio caminho e (somente) sobre ele (Israel) fez o Eterno recair a iniquidade de todos nós. (Israel) foi oprimido e afligido, mas calou e não se pronunciou. Como cordeiro que é levado para a matança, e como ovelha que fica muda ante seus tosquiadores, não abriu a sua boca. Com opressão e juízo iníquo foi aprisionado; acaso alguém (das nações) argumentou para com sua geração: Ele (Israel) foi exilado da terra dos vivos pela transgressão do meu povo, e por isso recebeu este duro golpe? E seu túmulo foi feito entre os malévolos, e sua tumba feita pelos poderosos, embora não tivesse praticado a violência nem houvesse mentira em sua boca.

Contudo, aprouve ao Eterno oprimi-lo para testar se sua alma se ofereceria como restituição, para que pudesse ver prolongados os dias de sua semente, e sentir prosperar, por seu intermédio os desígnios do Eterno. Ele percebeu o propósito e aceitou o sofrimento de sua alma. Por esta compreensão, fez reconhecer o Justíssimo perante todas as nações, suportando a iniquidade delas. Por isto, das nações separarei para ele uma porção e entre os poderosos receberá despojo, porque expôs sua alma à destruição e se deixou enumerar entre os transgressores, pois mesmo suportando os pecados de tantos, intercedeu pelos transgressores.”

 

Israel: O Servo Desprezado e a Unidade do Povo

 

Na prática, a passagem descreve Israel como um povo desprezado. Essa realidade não é diferente na atualidade, pois Israel ainda é visto com desdém entre as nações, devido ao seu modo de vida distinto e à sua observância da cashrut (leis alimentares) e da guarda dos shabatot (sábados).

O Eterno trata todo o povo de Israel como uma unidade, um só servo, conforme a declaração: "Tu és meu servo Israel." Essa unidade composta é fundamental, pois Israel, ou Jacó, teve doze filhos, e seus descendentes são coletivamente chamados de "povo de Israel." A interpretação aqui sugere que os sofrimentos e o papel de "servo ultrajado" descritos em Isaías 53 se aplicam à nação de Israel como um todo, e não a uma figura individual.

 

A Interpretação de Isaías 53 e a Não Conformidade com Jesus

A interpretação de que Isaías 53 se refere a Jesus é questionada, pois se assim fosse, as enfermidades deveriam ter cessado na terra, o que não é o caso. A persistência das doenças contradiz a ideia de que Jesus as teria levado. Do ponto de vista da Torá (Lei de Deus), a enfermidade é frequentemente vista como consequência da violação da lei. Na era messiânica, a humanidade se voltará para o cumprimento total da Torá, o que trará cura a todos, pois a Torá é considerada a "árvore da vida".

A vida do homem depende do cumprimento dos preceitos da Torá: "E guardareis os Meus estatutos e os Meus juízos, cumprindo os quais o homem viverá por eles – Eu sou o Eterno" (Levítico 18:5). E também: "e dei-lhes os Meus estatutos e ensinei-lhes os Meus juízos, os quais, se o homem os cumprir, há de viver por eles" (Ezequiel 20:11).

 

Sacrifício Humano: Uma Proibição Divina

 O sacrifício humano não é aceito por Deus (Jeremias 7:31); Ele nunca pediu tal coisa. O sangue humano é considerado insuficiente e proibido para o holocausto. Um homem é considerado impuro após a morte, e quem toca em seu cadáver fica impuro por sete dias. Apenas animais puros são permitidos para o holocausto. A justiça praticada por um homem salva apenas sua própria alma, não a de seu semelhante. Isso está claramente explicado na profecia de Ezequiel 18:20, mas, lamentavelmente, muitas pessoas ignoram essa clara escritura. A ideia de que um homem morreria para salvar alguém não faz parte do pensamento judaico. O Mashiach virá para restaurar a terra, transmitindo o conhecimento da Torá e estabelecendo um reino de paz. O costume de sacrifícios humanos é encontrado somente em cultos pagãos.

  

O Mashiach: Zacarias 9:9-10

A passagem de Zacarias 9:9-10 descreve as características e as ações do verdadeiro Mashiach:

"Rejubila-te com todo teu ser, ó filha de Tsion! Clama com alegria, ó filha de Jerusalém! Eis que para ti se encaminha teu justo rei, triunfante por suas vitórias, mas ao mesmo tempo comportando-se com humildade, cavalgando um filhote de jumento. Destruirei qualquer carruagem de guerra de Efraim, e eliminarei todo cavalo de combate de Jerusalém; será destruído o arco de batalha, e ele falará somente de paz às nações. Seu domínio se estenderá de um mar a outro, e desde o rio Eufrates até os confins da terra."

Esta descrição é crucial para identificar o verdadeiro Mashiach. Embora a tarefa não seja fácil e muitos tenham sido enganados ao longo da história judaica, até mesmo após Jesus, exemplos como Bar Kochba e Shabetai Tzvi demonstram a ocorrência de "alarmes falsos". Bar Kochba, que se autoproclamou Mashiach e foi reconhecido por um tempo, acabou sendo refutado. Shabetai Tzvi, outro que se intitulou Mashiach, também enganou muitos seguidores.

 

Motivo da morte de um profeta - Deuteronômio 13:1-6

A Torah, traz advertências ao profeta ou sonhador que pretende advertir o povo sobre seus erros, contudo o que falamos deve ser regido pelas leis eternas, que nos levam a acertos ou caso contrário a erros. Quando os oráculos são pronunciados levando o povo a erros, vem a cobrança, cuja sentença é a morte.

Na perspectiva judaica, Jesus foi um pregador judeu que acabou sendo executado pelos romanos, sem que sua morte tivesse significado teológico de salvação, O motivo da morte de Jesus, segundo a visão judaica, está ligado ao contexto político e social da época, sem atribuição de significado messiânico ou redentor.

Observações sobre a passagem

Tema central: Fidelidade exclusiva a Deus, mesmo diante de:

  • Profetas ou sonhadores(vs. 1-5) — que usam sinais e prodígios para desviar o povo
  • Parentes e amigos próximos(v. 6) — que incitam em segredo à idolatria

Ponto teológico importante (v. 3): Deus permite que falsos profetas realizem sinais como prova para testar a fidelidade do povo. Isso é significativo — o sinal ou prodígio em si não valida a mensagem; o conteúdo da mensagem é que determina se é verdadeiro ou falso.

Pena (v. 5): A falsa profecia que leva à idolatria era punida com morte, por ser considerada rebeldia contra Deus que os libertou do Egito.

Aplicação aos nossos dias: A passagem continua sendo usada em discussões sobre o sobrenatural — a ideia de que milagres ou sinais impressionantes não são prova de que uma mensagem vem de Deus.

 

Profecias que falharam - discípulos não provarem a morte

Mateus 16:27,28

² porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras.

² em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino.

O retorno de Jesus, foi interpretado, segundo o evangelho, como para os contemporâneos de Jesus, logo imediato a sua morte. Quando afirma, que alguns que estavam ali não provariam a morte até ver o filho do homem. Mas, como é ciente, todos morreram sem que fosse consumado tal promessa.

Há alegação, que se cumpriu no monte da transfiguração, segundo o texto viram a Jesus ressuscitado. Todavia, a promessa da segunda vinda não é

retratada como uma visão e sim com “o arrebatamento da igreja”.

Análise crítica judaica:

Sob a perspectiva estritamente judaica, esta declaração constitui uma profecia inequivocamente não cumprida. Jesus afirmou de forma direta que alguns de seus contemporâneos (que estavam fisicamente presentes diante dele) testemunhariam a vinda do Filho do Homem em glória antes de morrer. Passaram-se dois mil anos. Todos aqueles homens e mulheres morreram. Nenhum deles viu o Messias retornar em glória com seus anjos.

As tentativas cristãs de reinterpretar esta passagem como a Transfiguração (Mateus 17), a Ressurreição, a Ascensão ou a destruição de Jerusalém em 70 d.C. são, do ponto de vista judaico, artifícios hermenêuticos que não correspondem ao sentido literal e óbvio do texto. Jesus falou de um evento cósmico e visível — "na glória de seu Pai, com os seus anjos" — e não de uma experiência privada de três discípulos numa montanha, nem de um julgamento histórico sobre Jerusalém.

A linguagem empregada por Jesus ecoa Daniel 7:13-14, que descreve a vinda do Messias em glória para receber o reino eterno. Se Jesus era o Messias, ele errou ao predizer o tempo de sua manifestação gloriosa.

Conclusão judaica: Profecia falhada. Jesus equivocou-se quanto ao tempo de sua vinda gloriosa.

 

Profecia da vinda de Jesus antes de percorrer a última cidade de Israel

Mateus 10:23 - diz: "Em verdade vos digo: não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que volte o Filho do Homem". Essa frase é uma instrução paraos apóstolos sobre como enfrentar a perseguição.

A frase refere-se a uma profecia de Jesus em Mateus 10, onde afirma que os discípulos não terminarão de percorrer todas as cidades de Israel antes da volta do Filho do Homem. Isso indica um tempo limitado para a missão e aponta para um evento messiânico iminente.

Análise crítica judaica:

Esta declaração é particularmente reveladora, pois contém três elementos que, sob a exegese judaica, demonstram o equívoco da pretensão messiânica de Jesus:

O contexto imediato

Jesus envia seus doze apóstolos para pregar exclusivamente às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mateus 10:5-6). Ele os instrui sobre como proceder diante da perseguição e, como encorajamento, afirma que eles não teriam tempo de percorrer todas as cidades de Israel antes que ele próprio retornasse. A promessa é clara, específica e temporalmente delimitada.

O significado da expressão "antes que venha o Filho do Homem"

Dentro da escatologia judaica, a vinda do Filho do Homem é um evento messiânico único e definitivo, conforme Daniel 7:13-14. Jesus, ao usar essa expressão, está se referindo à sua própria manifestação como Messias. Ele não está falando de sua morte, ressurreição, ascensão ou de um evento espiritual invisível. Está falando de sua vinda em poder e glória.

O problema cronológico

Os apóstolos percorreram as cidades de Israel. A missão foi cumprida. Eles pregaram, curaram, expulsaram demônios. E, no entanto, o Filho do Homem não voltou. Os apóstolos envelheceram e morreram — todos eles — sem ver o cumprimento da promessa.

Objeção cristã comum: A vinda do Filho do Homem se refere à destruição de Jerusalém em 70 d.e.C., que ocorreu dentro da mesma geração."

Refutação judaica:

Esta interpretação é insustentável por várias razões:

Anacronismo hermenêutico: A destruição de Jerusalém por Tito em 70 d.e.C. não é, em momento algum, descrita nas Escrituras Hebraicas como a "vinda do Filho do Homem". Trata-se de um evento histórico traumático, sem dúvida, mas não de uma manifestação messiânica gloriosa.

Incoerência textual: Se a "vinda do Filho do Homem" é a destruição de Jerusalém, então Jesus estaria dizendo aos apóstolos: "Fugi de cidade em cidade, porque não terminareis de percorrer Israel antes que Jerusalém seja destruída." Isso não faz sentido. A destruição de Jerusalém afetaria toda a nação, e não apenas a missão dos apóstolos. Além disso, a advertência de Jesus seria irrelevante para a perseguição que eles enfrentavam.

Violência hermenêutica: A leitura cristã precisa distorcer o sentido claro do texto para fazê-lo "caber" na história. O texto diz o que diz: Jesus prometeu voltar antes que os apóstolos terminassem sua missão em Israel. Isso não aconteceu.

Análise crítica judaica:

Tessalonicenses 4:17

"Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor."

 

Embora esta passagem seja do apóstolo Paulo e não de Jesus diretamente, ela reflete a crença messiânica do cristianismo primitivo e é citada pelos cristãos como prova de que a ressurreição e o arrebatamento ocorreriam em breve, ou em seus dias.

O Mashiach ainda não veio. Esta constatação, longe de abalar a fé de Israel, a fortalece, pois, a esperança judaica não se funda em acontecimentos consumados, mas na fidelidade do Eterno às suas promessas. Como está escrito pelo profeta Habacuque:

"Ainda que a visão demore, espera por ela, porque certamente virá, não tardará" (Habacuque 2:3).

 Por esta razão, a fé judaica se mantém inabalável na convicção expressa pelo Rambam em seus Treze Princípios: "Creio com plena fé na vinda do Mashiach. Ainda que se demore, esperarei por ele a cada dia, que venha."

Não se trata de uma expectativa vaga ou de um desejo piedoso, mas de uma certeza enraizada nas Escrituras. O Eterno não falha em suas promessas. Se o Mashiach ainda não se manifestou, é porque o tempo designado pelo Santo, bendito seja, ainda não chegou — e não porque as profecias tenham se cumprido em outro que não corresponda aos sinais anunciados.

A história de Israel é testemunha de que o Eterno age no tempo certo. Abraão esperou anos pelo filho prometido. Moshe esperou no deserto. O povo esperou no Egito. E em cada caso, a espera foi coroada pelo cumprimento. Assim será com o Mashiach.

Neste ponto, cumpre fazer uma pausa para a reflexão. Erros existem para que haja acertos. As Escrituras ensinam que o justo cai sete vezes e se levanta (Provérbios 24:16). O reconhecimento do erro não é fraqueza — é o princípio da sabedoria. Feliz é o homem que, a tempo, reconhece seu equívoco e faz os ajustes necessários em sua compreensão sobre o Mashiach e sobre o plano do Eterno para a humanidade.

Ditoso é aquele que, tendo seguido por um caminho que se revelou equivocado, tem a humildade de retornar à fonte pura das Escrituras, examinando-as à luz da verdade revelada a Israel no Sinai. Pois a verdade não se impõe pela força dos argumentos humanos, mas pela evidência clara do que o Eterno disse e cumpriu ao longo da história.

Que cada homem, portanto, coloque o Eterno como o Deus Único de sua vida, conforme proclamado diariamente no Shemá: "Ouve, Israel: o Eterno, nosso Deus, o Eterno é Um" (Deuteronômio 6:4). Que nenhum mediador, nenhum intercessor, nenhum homem — por mais sábio ou virtuoso que tenha sido — ocupe o lugar que pertence exclusivamente ao Criador dos céus e da terra.

Pois o Mashiach virá. E quando vier, não haverá dúvida: as nações reconhecerão, os povos se curvarão, e a glória do Eterno encherá toda a terra. Até lá, Israel espera. E espera com fé, com coração inteiro e com a certeza de que a promessa não falha.

  1. A natureza do Messias segundo a tradição judaica

Maimônides (Mishnê Torá, Hilchot Melachim 11:1-4) estabelece os critérios inequívocos para a identificação do Messias:

"Não se devem alimentar ilusões de que o Rei Messias tenha de operar milagres e prodígios, ou renovar algo na criação, ou ressuscitar mortos, ou coisas semelhantes. Assim dizem os sábios: 'O Rei Messias não há diferença entre este mundo e os dias do Messias, senão a subjugação dos reinos estrangeiros' (Talmude Babilônico, Berachot 34b; Shabat 63a; Meguilá 17b; Sanhedrin 91b, 99a)."

Se o Messias viesse em glória, como Jesus prometeu, tal evento seria público, universal e inconfundível — não uma experiência particular de três discípulos nem um evento espiritual invisível.

  1. O Messias como ser humano, não divino

Rashi (Comentário a Isaías 11:1): "Um broto sairá do tronco de Jessé... Este é o Rei Messias." A imagem é de um rebento humano, uma árvore que brota de raízes já existentes, não de uma divindade descendo do céu.

  1. O tempo da vinda messiânica

Talmude Babilônico, Sanhedrin 97a-98b discute extensamente os sinais e o tempo da vinda do Messias. Em Sanhedrin 98b, há uma declaração significativa:

"Rabi Eliezer disse: 'Os dias do Messias durarão quarenta anos.' Rabi Eliezer ben azarias disse: 'Setenta anos.' Rabi ben Dosaí disse: 'Seiscentos anos.'"

A diversidade de opiniões demonstra que os sábios não fixaram uma data precisa. No entanto, é unânime que o Messias viria em uma geração e traria transformações visíveis e concretas.

 

Visão judaica sobre o derramamento do espirito sobre toda a carne (Glossolalia)

Na interpretação judaica tradicional, a profecia de Joel sobre o derramamento do Espírito não é vista como um evento já cumprido de forma definitiva no passado, mas como parte da redenção futura e da era messiânica.

O texto diz:

"E acontecerá depois que derramarei o meu espírito sobre toda carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos terão sonhos, vossos jovens terão visões."
(Joel 3:1-2 na numeração hebraica; Joel 2:28-29 em muitas Bíblias cristãs)

O que significa "toda carne"?

Na visão judaica, "toda carne" (kol basar) não significa necessariamente cada indivíduo do planeta recebendo o Espírito Santo da mesma forma. A expressão costuma ser entendida como uma ampliação extraordinária da inspiração divina, que deixará de estar restrita a poucos profetas escolhidos.

Durante a era bíblica, a profecia era concedida apenas a indivíduos específicos, como Moisés, Isaías e Jeremias. Joel anuncia um tempo em que o conhecimento de Deus será muito mais difundido.

Relação com a Era Messiânica

Muitos comentaristas judeus associam Joel a outras profecias messiânicas, como:

"Porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar."
(Isaías 11:9)

Nesse contexto, o derramamento do Espírito representa:

Maior percepção da presença de Deus.

Renovação espiritual de Israel.

Retorno da profecia, ausente desde os últimos profetas bíblicos.

Elevação moral e espiritual da humanidade.

Conhecimento universal do Eterno.

O entendimento dos comentaristas judeus

O comentarista medieval Rashi interpreta a passagem como uma promessa para os dias futuros, quando a inspiração divina será amplamente distribuída entre o povo de Israel.

Já David Kimhi explica que a profecia descreve uma abundância de inspiração divina sem precedentes, em contraste com os tempos em que apenas alguns indivíduos eram profetas.

 

Diferença em relação à interpretação cristã

No cristianismo, especialmente a partir de Atos dos Apóstolos capítulo 2, a profecia de Joel é frequentemente entendida como tendo começado a cumprir-se no evento de Pentecostes.

Já o judaísmo observa que Joel vincula esse derramamento do Espírito a outros acontecimentos escatológicos, como:

A restauração de Israel.

O julgamento das nações.

Sinais cósmicos.

A redenção universal.

Como esses eventos não foram plenamente realizados, a interpretação judaica conclui que a profecia ainda aguarda seu cumprimento completo na era messiânica.

Resumo da visão judaica

Para o judaísmo, Joel não está anunciando o surgimento de uma nova religião nem uma experiência espiritual limitada a um grupo específico. A profecia aponta para um futuro em que Deus concederá inspiração, sabedoria e conhecimento espiritual em escala muito maior, especialmente em conexão com a redenção messiânica e a restauração de Israel. Nesse tempo, a profecia voltará a florescer e o conhecimento do Eterno se espalhará por toda a humanidade.

A glossolalia na visão judaica

A glossolalia (falar em línguas) não ocupa um papel significativo na tradição judaica clássica. Diferentemente de alguns ramos do cristianismo pentecostal e carismático, o judaísmo não considera o falar em línguas extáticas como um sinal normativo da presença do Espírito de Deus ou da profecia.

O que é profecia no judaísmo?

Na Bíblia Hebraica, quando o Espírito de Deus vem sobre alguém, os resultados mais comuns são:

Profecia inteligível.

Sabedoria.

Discernimento.

Coragem para cumprir uma missão divina.

Louvor e cânticos compreensíveis.

Os profetas bíblicos transmitiam mensagens que podiam ser entendidas pelo povo. A função da profecia era comunicar a vontade de Deus, não produzir sons ou palavras ininteligíveis.

Existem exemplos de glossolalia no Tanakh?

Não há um exemplo claro de glossolalia extática no Tanakh (Bíblia Hebraica).

Há passagens em que profetas entram em estados de êxtase ou inspiração, como:

Saul entre os profetas (1 Samuel 10:5-12).

Os grupos proféticos mencionados em Samuel e Reis.

Contudo, o texto não diz que eles falavam idiomas desconhecidos ou sons incompreensíveis.

O Espírito Santo (Ruach HaKodesh)

No judaísmo, a Ruach HaKodesh ("Espírito Santo") é geralmente entendida como a presença inspiradora de Deus, que concede sabedoria, discernimento ou inspiração profética.

Os sábios judeus tradicionalmente associam a Ruach HaKodesh a:

Compreensão espiritual.

Revelação divina.

Sabedoria para interpretar a Torá.

Inspiração para compor salmos e ensinamentos.

Não há uma associação tradicional entre Ruach HaKodesh e glossolalia.

Há alguma exceção?

Alguns movimentos místicos judaicos, especialmente em correntes cabalísticas ou hassídicas, descrevem estados de êxtase espiritual, orações fervorosas e expressões emocionais intensas. Entretanto, isso não é equivalente ao fenômeno pentecostal moderno de falar em línguas.

A perspectiva judaica sobre Atos 2

Um judeu tradicional observaria que, em Atos dos Apóstolos 2, o milagre descrito não é exatamente glossolalia extática, mas pessoas falando idiomas humanos compreendidos por judeus de diversas nações presentes em Jerusalém. O próprio texto enfatiza:

"Como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?"

Assim, mesmo que um judeu aceitasse a narrativa como histórica, poderia interpretá-la mais como um milagre de idiomas compreensíveis do que como a glossolalia praticada em algumas igrejas modernas.

Resumo

Na visão judaica tradicional:

A profecia deve transmitir uma mensagem inteligível.

Não existe uma doutrina judaica de "falar em línguas" como evidência do Espírito Santo.

A Ruach HaKodesh está ligada à inspiração, sabedoria e revelação, não a sons ou idiomas desconhecidos.

Joel 2:28-29 prevê o retorno da profecia e da inspiração divina, mas os comentaristas judeus não entendem isso como uma referência à glossolalia.

Linguagem espiritual ou extática

Muitos cristãos associam a profecia de Joel ao fenômeno do falar em línguas, chegando alguns a interpretá-lo como uma referência a uma suposta "língua dos anjos". Contudo, ao examinarmos cuidadosamente o texto de Joel, verificamos que não há qualquer menção explícita ao "falar em línguas estranhas". O profeta fala do derramamento do Espírito, de profecias, sonhos e visões, mas não descreve o fenômeno das línguas.

Dessa forma, a ligação entre a profecia de Joel e o dom de línguas não decorre diretamente do texto profético, mas de uma interpretação posterior. Sob essa perspectiva, a ideia de uma "língua dos anjos" não encontra fundamento explícito em Joel, sendo uma construção teológica desenvolvida fora do contexto imediato da profecia. Portanto, não se pode afirmar que Joel tenha profetizado o falar em línguas estranhas, pois esse elemento não está presente em sua mensagem.

Frequentemente, apologistas cristãos recorrem à profecia de Joel para justificar a doutrina do falar em línguas, chegando alguns a afirmar que o profeta antecipou o fenômeno das chamadas "línguas angelicais". Contudo, uma leitura honesta e contextualizada do texto revela que tal interpretação não encontra respaldo nas palavras de Joel.

O profeta anuncia o derramamento do Espírito de Deus sobre toda carne, descrevendo como resultado desse evento a profecia, os sonhos e as visões. Em nenhum momento menciona línguas estranhas, idiomas sobrenaturais ou qualquer forma de glossolalia. A tentativa de inserir esse conceito na profecia não decorre da exegese do texto, mas de uma interpretação teológica posterior imposta sobre ele.

Portanto, do ponto de vista da exegese judaica, a alegação de que Joel profetizou o falar em línguas carece de sustentação textual. O profeta falou de inspiração profética, não de glossolalia; de revelação compreensível, não de expressões ininteligíveis. Qualquer tentativa de extrair do texto uma referência às chamadas línguas estranhas ultrapassa os limites do que Joel efetivamente declarou e transfere para a profecia conceitos que lhe são alheios.

 

A perspectiva judaica

Do ponto de vista judaico tradicional, essa segunda concepção encontra dificuldades, porque a profecia bíblica tem como finalidade comunicar uma mensagem inteligível ao povo. Por isso, os judeus argumentariam que uma fala que ninguém entende não corresponde ao modelo profético encontrado no Tanakh (Bíblia judaica).

Conclusão

Chegamos, pois, ao final desta breve exposição. Não foi nosso intento, em momento algum, esgotar a matéria — pois tão vasto é o tema do Mashiach que todas as águas do mar seriam insuficientes para conter os livros que sobre o assunto se poderiam escrever. O que se buscou, antes, foi oferecer ao leitor sincero os elementos essenciais para que possa, com olhos abertos e coração reto, examinar as Escrituras e discernir a verdade.

O objetivo nunca foi esgotar todo o assunto, mas para um bom entendedor, que está em busca de conhecer os erros e acertos sobre o Messias, creio que será suficiente.

As Escrituras Hebraicas são claras em seus critérios. O Mashiach será da casa de Davi, filho de Jessé. Será um rei que governará com justiça e sabedoria. Reunirá os exilados de Israel e de Judá desde os quatro confins da terra. Trará paz permanente entre as nações, a ponto de converterem suas espadas em relhas de arado e suas lanças em foices. Edificará o Templo do Eterno em Jerusalém e todas as nações subirão a ele para adorar o Santo, bendito seja. E, acima de tudo, estabelecerá o conhecimento do Eterno sobre toda a terra, como as águas cobrem o mar.

Nenhum desses sinais se cumpriu nos dias de Jesus de Nazaré. Ele não estabeleceu um reino, não trouxe paz ao mundo, não reuniu os exilados de Israel, não edificou o Templo, nem fez cessar as guerras entre as nações. Pelo contrário, após sua passagem pela história, a dispersão de Israel se intensificou, o Templo foi destruído, e as guerras se multiplicaram entre os povos.

Aquele que é denominado Mashiach nas tradições de Israel ainda está por vir. A esperança judaica não é vã, pois se funda nas promessas do Eterno, que não falha e não mente. Como está escrito pelo profeta Habacuque: "Ainda que a visão demore, espera por ela, porque certamente virá, não tardará" (Habacuque 2:3). E como afirma Maimônides, com a força da fé de Israel através dos séculos: "Creio com plena fé na vinda do Mashiach; ainda que se demore, esperarei por ele a cada dia, que venha."

Erros existem para que haja acertos. Feliz é o homem que, a tempo, reconhece seu equívoco e faz os ajustes necessários em sua compreensão sobre o Mashiach, colocando o Eterno como o Deus Único de sua vida. Pois a verdade — a verdade que liberta — não se encontra em interpretações estranhas ao texto original, nem em alegorias forçadas que tentam fazer caber nas Escrituras aquilo que nelas não está escrito.

A verdade está na Torá, nos Profetas e nos Escritos. Está na voz do Eterno que ressoou no Sinai e que continua a ecoar através dos séculos nas páginas do Tanach. Está na promessa que ainda aguarda cumprimento, na esperança que não se apaga, na certeza de que o Santo, bendito seja, cumprirá tudo o que prometeu.

Que este livro sirva de auxílio ao que busca. Que o leitor, munido destas reflexões, volte às Escrituras com olhos renovados e coração aberto, examinando cada profecia, cada promessa, cada sinal. E que, ao final de sua busca, encontre não a doutrina dos homens, mas a verdade do Eterno.

Pois o Mashiach virá. A promessa subsiste. E Israel espera.

Amén, ken yehi ratzon — Assim seja, que esta seja a Sua vontade.

 

 

Autor: Maxwell Alves Gusmão

 

 

 

Bibliografia — Fontes Judaicas Consultadas

I — Escrituras Sagradas

Tanach (Bíblia Hebraica)

Torá (Pentateuco) — Texto Massorético com pontuação tiberiense

Nevi'im (Profetas) — Edição baseada no Códice de Leningrado

Ketuvim (Escritos) — Manuscritos de Alepo e Leningrado

Edições consultadas:

Biblia Hebraica Stuttgartensia — Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart

Tanach — The Holy Scriptures — Jewish Publication Society, 1985

Mikraot Gedolot — Edição rabínica com comentários clássicos

II — Talmude

Talmude Babilônico (Talmud Bavli)

Massechet Berachot (Tratado das Bênçãos)

Massechet Shabat (Tratado do Sábado)

Massechet Meguilá (Tratado do Rolo de Ester)

Massechet Sanhedrin (Tratado do Sinédrio) — Especialmente capítulo Chelek (Sanhedrin 90a-113b)

Massechet Avodá Zará (Tratado da Idolatria)

Talmude de Jerusalém (Talmud Yerushalmi)

Massechet Berachot

Massechet Sanhedrin

Edições consultadas:

Talmud Bavli — Edição Vilna (Romm), 1880-1886 (reimpressão)

Talmud Yerushalmi — Edição Krotoszyn, 1866

The Babylonian Talmud — Tradução inglesa de Isidore Epstein, Soncino Press

III — Midrashim (Obras Homiléticas)

Midrash Bereshit Rabbá (Midrash sobre Gênesis) — Século V d.C.

Midrash Shemot Rabbá (Midrash sobre Êxodo)

Midrash Vayikrá Rabbá (Midrash sobre levítico)

Midrash Tehilim (Shoher Tov) — Midrash sobre os Salmos

Midrash Mishlei — Midrash sobre Provérbios

Pesikta de-Rav Kahana — Homilias para festas e ocasiões especiais

Pirkei de-Rabi Eliezer — Narrativas midráxicas (século VIII d.C.)

Edições consultadas:

Midrash Rabbah — Edição Vilna, 1878 (reimpressão)

Midrash Tanchuma — Edição Buber, 1885

Midrash Rabba al ha-Torah — Edição Mossad Harav Kook, Jerusalém

IV — Comentários Clássicos (Rishonim — Sábados Medievais)

Rashi (Rabi Shlomo ben Yitzchak, 1040-1105)

Comentário sobre toda a Torá

Comentário sobre os Profetas Anteriores e Posteriores

Comentário sobre os Escritos

Radak (Rabi David Kimchi, 1160-1235)

Comentário sobre Isaías

Comentário sobre Jeremias

Comentário sobre Ezequiel

Comentário sobre os Doze Profetas Menores

Sefer HaShorashim — Livro das Raízes Hebraicas

Ibn Ezra (Rabi Avraham ben Meir ibn Ezra, 1089-1167)

Comentário sobre a Torá

Comentário sobre Isaías

Comentário sobre os Doze Profetas Menores

Ramban (Nachmânides — Rabi Moshe ben Nachman, 1194-1270)

Comentário sobre a Torá

Sefer HaGeulá — O Livro da Redenção (sobre o Messias)

Ralbag (Gersonides — Rabi Levi ben Gershon, 1288-134

 

[i] O Mosteiro Ortodoxo da Transfiguração, mais tarde conhecido como Mosteiro de Santa Catarina, foi construído no sopé do Monte Sinai, no Egito, entre os anos 527 e 565, por ordem do imperador bizantino Justiniano I. É o mosteiro cristão mais antigo ainda em uso para sua função original, e sua localização desértica reflete a antiga tradição do ascetismo (Wikipédia).